Artigo de Opinião

RAPAZ MUTILADO DURANTE CIRURGIA

Hoje ouvi uma história profundamente assustadora. Hoje duvidei seriamente do sistema de saúde português. Hoje senti-me mal, fisicamente mal, e digo isto com toda a honestidade.

Eu, não estando familiarizado com os procedimentos normais de uma cirurgia, quanto mais de uma cirurgia assistida por estagiários, não consigo dizer quantos destes comportamentos são protocolo e quantos são pura perversidade. Mas sei que a perversidade existe neste caso médico.

Um estudante da Universidade do Porto (anonimizado para o efeito deste artigo), recentemente em estágio, assistiu a uma cirurgia a um testículo, num hospital privado do Porto. Depois de o médico retirar o testículo “morto” do paciente, mostrou-o ao referido estagiário de forma a este ver como era um testículo “morto”. Naturalmente, o estudante nunca tinha visto um testículo saudável, o que confessou ao cirurgião. Claro que o médico não podia mostrar os seus, como ele próprio afirmou, por isso seria simples fazer outro corte naquele objeto pousado na mesa de operação, que iria sentir dores no dia seguinte de qualquer forma. Então, este médico, assumindo o papel de Josef Mengele – um médico nazi que em Auschwitz fazia experimentação humana nos prisioneiros do campo de concentração, também conhecido por “Anjo da Morte” – decidiu abrir o outro testículo, o testículo saudável do rapaz inconsciente em anestesia geral, para poder dar um termo de referência ao estagiário.

Não tendo chegado isto, ainda fotografaram com os seus smartphones o testículo retirado para se poderem lembrar deste dia tão divertido.

Por esta altura, penso não ser necessário referir o quão incorreto moral e eticamente este comportamento foi, ainda mais sendo aparentemente normal para todos naquela sala de operações, excetuando, claro, o rapaz inconsciente deitado na mesa de operações que certamente não foi informado que o seu corpo foi utilizado como um boneco numa aula de anatomia, e que, em vez da esperada única cicatriz, tem agora duas cicatrizes nos seus genitais, porque foi necessário durante a cirurgia.

Todos sabemos que casos de incompetência médica acontecem, todos sabemos que casos de mutilação humana acontecem, todos sabemos que estes casos só acontecem em hospitais longe de cá, ou em países como a China. Ninguém quer acreditar que um hospital privado no Porto seja capaz de tais atos. É assustador pensar que não há forma de controlar estes pervertidos que continuarão a exercer medicina independentemente dos erros profissionais que cometam.

Eu podia-me ter ficado a sentir fisicamente melhor e ir ver um filme como tinha planeado fazer nesta tarde. No entanto, não consigo saber que um médico pode mutilar um rapaz, que confiou nele para o pôr bom, e escapar sem sequer o pequeno grupo, que são os estudantes da Universidade do Porto, a quem eu consigo chegar, ficar a saber que uma criatura destas pode estar no próximo hospital a que vão.

Perdoe-me se os detalhes são vacilantes, esta história foi-me contada em segunda mão, mas acreditem que é verdadeira e infelizmente não é única. É apenas um dos inúmeros casos de incompetência médica que ficam dentro dos blocos operatórios, ignorados por todas as pessoas lá conscientes.