Devaneios

UMA MENINA E O SEU AVÔ

Uma menina e o seu avô. De forma curiosa, à imagem de qualquer criança, caminhava esta menina, de mão dada à do seu avô, conhecedor e experienciador de toda e qualquer sensação que o mundo lhe tinha a proporcionar. Seja do amor à dor, da guerra à paz, ele havia sentido de tudo. Dessa forma, e num passeio à beira-mar, a menina pergunta-lhe:

– Avô, o que é que é mais bonito no mundo?

– Não sei, minha querida, há tanta coisa linda…

– Diz lá uma! – exclamou o entusiasmo da rapariga.

– Olha, a tua avó. É a principal princesa da minha vida, à qual se juntam a tua mãe e a tua tia, e agora tu.

– Isso é bonito, mas é mais que uma coisa!

– Tens razão, tens… Pois, sabes que é difícil. Vais conhecer muito de belo e de menos belo na vida, no grande mundo que temos à disposição. A vida de adulto não é fácil, embora seja também bonita. Estamos mais abertos, recetivos e conscientes sobre aquilo que nos rodeia. Nada nos impede de concretizar aquilo que sonhamos com a tua idade – esfrega subtilmente a cabeça à menina com carinho – se soubermos seguir o caminho certo.

– E tu seguiste, avô?

– Sabes que, mesmo que não nos apercebamos, damos passos para concretizar aquilo que nos está reservado de mais bonito. O melhor da vida está mesmo em irmos descobrindo aquilo que é segredo, mas que nos é revelado com a surpresa. Tal como tu quando recebes os teus presentes, sentes-te encantada, ou quando vês alguém de quem gostas muito, e que já não vias há muito tempo.

Um silêncio meditativo que preenchia o ambiente mais do que qualquer palavra conseguiria. O avô decidiu encher-se da curiosidade que também lhe era caraterística, e que herdara à sua neta.

– E tu, o que é que já viste de mais bonito na vida?

– Eu sou muito novinha, mas a praia e o mar já me dizem muito. Por mim, vivia aqui, com este ar e com as pessoas que vou conhecendo aqui. Comigo, trazia os meus amigos, a nossa família e o Kiko, o meu gatinho.

– Sabes, tens toda a razão. Nós, adultos, vamo-nos esquecendo da maravilha que é a Natureza, como esta praia. Depois, damos por nós, passado o tempo do esquecimento, e a perceber aquilo que fomos deixando de lado. Vemos que o melhor de nós nem sempre nos olha nos olhos porque o perdemos de vista. Agradeço-te por esta lição.

– Mas avô, então e as casas, os carros e as roupas bonitas que usam?

– Nada é mais bonito do que uma alma a sorrir, minha querida. Sabes melhor isso do que eu, por mais anos que tenha vivido – retorquiu com um rasgado sorriso, prendado com as suas brilhantes memórias.

E foi assim que caminharam. Passado e futuro uniam-se no presente, no tal a não esquecer, mas a aproveitar. A fusão destas duas perfumadas almas dava-se na união das suas palmas, em visões que, por mais distantes em quantidade, se espelhavam em qualidade.