Devaneios

GENESIS PARTE I

Acredito que desde que acedi pela primeira vez, de forma consciente, ao privilégio que é o pensamento, sempre foi genuína em mim uma vontade de conhecer, mas sobretudo de partilhar o mundo com o mundo e de aprender a crescer, realizar-me e ser feliz nesse processo. Ora, essa louvável aspiração da criança que era – e gosto de pensar que (ainda) sou – sempre encontrou concretização, predominantemente, através da literatura e da palavra.

 

Com o tempo, tive a oportunidade de ganhar sensibilidade para amar a palavra, a racionalidade e tudo o que lhe é inerente. A palavra tem um poder imenso: o de representar a realidade no nosso cérebro para que a possamos pensar, construir e reconstruir sempre que quisermos ou nos for necessário. A título de exemplo, o mar já existia antes de existirem seres humanos que lhe chamassem ‘mar’ ou uma outra qualquer representação sonora. Contudo, só ao ser representado enquanto palavra pelos homens é que o mar pôde passar a figurar nas nossas mentes mesmo quando não estamos na sua presença.

 

De facto, a palavra permitiu-nos combater alguma distância, no sentido em que podemos estar fisicamente longe de uma realidade – como se se tratasse de um amigo falecido, de um momento histórico passado, de um direito não reconhecido (como a liberdade) ou, simplesmente, do mar – e, ainda assim, pensá-la e representá-la na nossa mente. Se pensarmos novamente no mar, essas três letras juntas implicam um significado bem maior do que a sua soma ou separação, pois implicam o surgimento de várias qualidades que para cada um de nós fazem do mar, mar. Sejam o seu estado líquido, a sua ondulação, o teor salino da água ou até questões do imaginário de cada um, mais pessoais, como o facto de o mar poder ser uma fonte de receita para os pescadores, uma fonte de lazer para os surfistas e mergulhadores ou uma fonte de saudosismo, aventura e deslumbramento pelo desconhecido como foi para os nossos velhos antepassados na época dos descobrimentos.
Mais do que quebrar barreiras entre o ser humano e a realidade, permitindo que fôssemos capazes de nos relacionar com o mundo através de esquemas mentais representativos do mesmo, a palavra permitiu que nos aproximássemos. Estandardizou de forma dinâmica a maneira de representar de cada um para que a realidade de cada um fosse passível de ser traduzida na do outro, tanto quanto possível. A palavra diminuiu a distância entre os homens pois deu-lhes um acesso melhor e partilhado a algo que todos tinham em comum sem o saber, ainda.

 

Existirá algo mais aproximador do que aquilo que partilhamos e que é comum à espécie? E o que será o bem mais precioso que temos em comum? A vida! A palavra aproximou-nos da vida, deixando esta de ser mera existência e passasse a ser pensada, representada, posta em contacto com as emoções, amada, sofrida, conseguida, odiada ou vencida. Passámos a poder representar mentalmente cada vez mais aquilo que concerne à nossa vida física e psicológica e, por isso, passámos a poder viver num encontro maior com o outro e com a sua realidade. Assim, o até então desencontro da não compreensão, da não partilha, da ausência de significados comuns ou pelo menos da ausência da consciência da sua existência deixou de ter tanto espaço no quotidiano.
Quem não é sensível a algum fenómeno não poderá ser realmente consciente da sua existência e viverá assim sem dele se dar conta, numa percepção da realidade em que tal não terá lugar. Assim apesar de tal fenómeno existir, ao não sermos sensíveis a ele, ao não lhe darmos o seu devido lugar no mundo, vivemos cegos num acerto que não é a realidade mas a que muitos – cobardes -chamam ‘a sua realidade’. Um termo que me irrita profundamente pois deveria ser o oposto, dever-se-ia chamar-lhe: ‘a minha ilusão’. Uma vez que a realidade é una e infinitas são as percepções dessa mesma. Umas mais desajustadas, incoerentes e inadequadas do que outras que serão mais sensíveis, mais susceptíveis a uma contínua construção e em última instância as que mais provavelmente possibilitarão um acesso e uma interação mais plena, eficaz, satisfatória, e frutífera com essa una e única realidade.