Devaneios

O EXISTENCIALISMO DE UM DEVANEIO

Este é um devaneio. Ou não. Será? Será mesmo um devaneio? Pois, não sei. Nem eu sei. Será aquilo que o texto quiser, será aquilo que o mundo quiser fazer dele. Eu só o vou escrever. O resto fica ao critério daqueles que o lerem. Sou só o criador, aquele que dá as palavras e a matéria à sua identidade.

Muitas vezes, deixo de ter em conta o que ele realmente é. Perco-me nestas andanças de escrever. Escrivaninho, para usar um verbo que nem sei se existe mas que soa a alguém que, como sujeito ativo, emite carinho e preocupação. É isso que sinto pelo meu devaneio. Aquele acompanhamento de um pai, quando vê o seu filho a gatinhar pela primeira vez, a andar, a falar, a articular frases e a dar vigor e força a ideias e a sentimentos. É assim que vejo o crescimento do meu devaneio.

É um devaneio que se interroga com regularidade. Não se cansa de colocar questões ao mundo. É mesmo assim o devaneio. Lá se debate com coisas que se podem ver e comprovar, e com outras que, de forma incansável, não consegue verificar. Mesmo assim, deixo-o discutir consigo e com os seus. É do teor da sua existência que se trata, é do seu sentido de identidade. Deixo-o descobrir-se, autonomamente mas sem se magoar, sem cair na descrença de que nunca se realizará ou se cumprirá. Isso é tirar-lhe a felicidade sem pedir licença, e isso, pelo menos aqui, não acontecerá.

Por isso, acabo assim o devaneio. No fundo, deixo-o ter essa independência, mas escolho quando finda. Não serei um pai incorreto? Não será que devia deixar o devaneio ser, existir, modelar-se aos mundos e contextos onde se integra e perpetuar-se? Talvez, sim, talvez seja o melhor. Por isso, deixo-o por aí. Que se complete enquanto o observo. Enquanto isso, vou criando outros e dando vida. Ser pai é isto. Criar, ver crescer e deixá-los partir. Será assim até não poder mais. É o que me dá vida, é o que me dá felicidade. Assim, crio e deixo que se completem por eles. É esta a alegria de um pai, a de ver os filhos realizarem-se pelo mundo, respeitando os seus valores mas sendo felizes conforme as suas vontades e sonhos. Eis a minha missão cumprida.