Devaneios

A VIDA NA CIDADE

Este acontecimento não teve reverberações no espaço-tempo, nem alterou a História da Humanidade.

Este acontecimento já ocorreu vezes sem conta, e ocorrerá ainda mais.

Este acontecimento faz parte da vida na cidade…

 

Tudo começou quando uma típica citadina atravessou a passadeira num semáforo vermelho. Uma típica citadina é definida na enciclopédia como: uma pedestre de meia idade facilmente identificável em qualquer cidade pelo seu fato de treino, figura magra e falta de cuidados de beleza.

A nossa pedestre, como apressada que era, prontamente ignorou as viaturas em circulação e o risco que corria ao cruzar assim o trânsito, evitando apenas por um triz um carro que, contará ela mais tarde, se recusou a abrandar ao vê-la legitimamente no meio da rua. Apesar disto, é a pedestre que reclama e pragueja a este condutor verdadeiramente perverso. Falta notar ainda, que a citadina não tinha horários para cumprir nem obrigações a realizar. Esta pedestre estava com pressa, porque vive na cidade.

Enquanto que o nosso condutor, por outro lado idoso e rural, e com má vista, ficou terrivelmente abalado com a quase-colisão – confessando nesse mesmo dia ao seu pároco, que não tinha visto a senhora, e que não saberia o que fazer com a sua vida se lhe tivesse roubado a dela – viu-se forçado a parar o carro mais à frente para recuperar do susto. Infelizmente, o ritmo da cidade não parou também.

E, foi assim apenas outro dia na vida desta citadina, e assim a última vez que este rural conduziu na cidade. Porque a vida na cidade, meus senhores e minhas senhoras, não é para todos.