Devaneios

A HISTÓRIA DE UMA PAPAGAIO QUE NUNCA APRENDEU A VOAR

Eu ainda consigo ver o papagaio-de-papel no chão da minha escola primária. Eu, o Francisco e a Alexandra passámos um intervalo inteiro a tentar fazê-lo voar. Tinha sido o Francisco a trazê-lo para a escola, mas sem dizer aos pais, porque tinha medo que eles não o deixassem. E isto tornava a situação muito mais entusiasmante: saber que estávamos a quebrar as regras, mesmo que imaginárias.
Quando eu digo que me lembro do papagaio no chão, e não no céu, é simplesmente porque ele nunca subiu mais alto do que as nossas cabeças. Apesar da Alexandra ser a maior, nem quando ela o levantava, o papagaio passava da altura do muro da escola.
Em contraste, ao encontrar a Alexandra alguns anos mais tarde ela contou-me de como se lembra claramente de ver o papagaio a cortar as nuvens do recreio; e o Francisco sobretudo da excitação de levar um brinquedo para a escola sem autorização dos pais, mas convencido de que tinha sido um Game Boy. O facto de estas três pessoas recordarem-se do mesmo momento de três formas diferentes, só atesta o facto de que as memórias de infância são maioritariamente recreações adultas.
Agora, quando eu penso naqueles minutos – uma eternidade na vida de uma criança -, eu consigo ouvir a Mary Poppins a cantar, enquanto nós alegremente saltávamos e lançávamos o papagaio. Contudo, sei claramente que pelo menos esta parte é uma romantização do passado, já que a primeira vez que ouvi “Let’s Go Fly a Kite” foi há uns três ou quatro anos atrás. Na realidade, éramos nós que tocávamos a nossa própria banda sonora: os risinhos de quando os outros falhavam, a inocência com que discutíamos aerodinâmica, e os pequenos passos a pisar o chão de cimento, são a melodia daqueles tempos.
E é assim, com o tempo, que esta história se torna nada mais do que sensações e imagens dispersas, como acontece com a maioria das recordações de infância. Sei que nunca terei uma memória cinematográfica perfeita, assim como a da Alexandra, da vez em que eu e os meus amigos de infância fizemos um papagaio-de-papel voar. No entanto, não tem problema, pois essa era a melhor parte de ser criança: quando eu não queria que a vida fosse perfeita, só queria que fosse divertida.