Devaneios

TRUMP-TWIST

Na última quarta-feira, o mundo acordou em choque. Lágrimas, posts revoltadíssimos no Facebook (eu, inclusive), conversas de café sobre a absurdidade do acontecimento; medo generalizado. Com muita revolta nos atrevemos a insultar os americanos que votaram nele, chamando-lhes estúpidos. E certamente, muitos o serão.

Invariavelmente, acredito que o grande problema destas eleições foi a oposição a Trump. A imagem de um tirano que só dizia barbaridades parece ter acomodado Hillary na sua vitória certa, o típico underestimate do adversário. E todo o mundo o fez, por pressão dos media e/ou do bom senso. O grande choque para nós advém da nossa ignorância perante os EUA, por não sabermos o que as pessoas pensam ou o que sentem e por termos tomado como verdadeiro tudo que nos foi “dito”.

Ponderei, então, a possibilidade de haver aqui uma vontade de mudança. E dividi-me entre a apreciação da capacidade intrépida e lúcida de revolta contra as ordens instaladas e a tragicidade dessa revolta imperar sobre todas as réstias de bom senso e valores morais que deveriam fazer parte do ideal humano, ou do americano, pelo menos. Li as palavras de uma muçulmana imigrante nos EUA, que disse algo como: votei no Donald Trump porque queria mudança. E sei que o sistema não lhe vai permitir fazer todas aquelas barbaridades que prometeu fazer. Votei Donald Trump porque Hillary prometia manter tudo igual e como estavam as coisas não estavam bem. Perante isto, apercebi-me que, talvez, não seja tudo estupidez e, em parte, exista a escolha, ponderada ou não, da possibilidade de mudança. Plot-twist? Também não parece estar para acontecer.

Acontece que, depois de tanto discurso de ódio, sexismo e racismo, Trump está “amansadinho”. Elogios a Hillary Clinton (em contraste com a anterior promessa de a mandar prender), elogios a Barack Obama (o anterior pior presidente dos EUA de todos os tempos), recusa de receber salário presidencial… Irreconhecível. Ou o resultado das eleições lhe encheu o coração de amor, ou instalou-se o espírito natalício, ou então, alguém meteu a coleira no cãozinho.

Parece-me que o Donald está confuso, não diz o que pensa porque, se calhar, agora não fica bem dizer aquelas coisas; não sabe muito bem o que fazer. Neste momento, talvez o melhor seja cingir-se aos guiões que lhe escrevem e tentar melhorar o sorriso depois das reuniões de clara harmonia com Barack Obama. O meu medo em vê-lo presidente não existia, uma vez que uma pessoa a dizer coisas que ele disse, nem numa entrevista de emprego de uma fábrica seria aceite. Mas, agora que é uma realidade, tenho ainda mais medo, só porque não sei o que esperar do homem que grabs ‘em by the pussy e que agora lambe as botas às pessoas que insultou.

Terá sido tudo campanha? Não terá isto passado de um papel que, com sucesso, conquistou os republicanos? Será Donald Trump outro escravo do sistema que tanto necessita de reformulação? Ou trará a mudança através da catástrofe? Veremos. Mas acho que pior do que esperar barbaridades de um líder, é não saber o que esperar dele. Assim, nem podemos revoltar-nos.