Crónica

A CULPA É DAS ESTRELAS

Ana Rita Costa
Ana Rita Costa

Rose e Phil cresceram a uns metros um do outro. Ela nasceu exploradora. Uma daquelas forças da natureza capaz de irromper pela atmosfera terrestre se a deixassem. Convencida de que tinha vindo ao mundo com o propósito exclusivo de aprender a voar e, depois disso, mais ninguém haveria de lhe pôr a vista em cima.

Ele nasceu aventureiro. Um daqueles tipos simples que não desperdiça tempo em planos. Sempre capaz de fazer qualquer coisa com coisa nenhuma, passem-lhe um par de parafusos e ele constrói-vos uma nave espacial.

Phil e Rose cresceram a uns metros um do outro, numa pequena província holandesa, daquelas onde os campos se enchem de túlipas em dias quentes.

Encontraram-se pela primeira vez numa típica festa de escritório. Duas dezenas de engenheiros, arrependidos por ver a luz do dia, cada um para seu lado, a sonhar com o eco do teclado. Quem os apresentou foi Matt Taylor.

O pobre homem é genial, mas também é um bocado estranho e isso salta mais à vista. Não vai ao ginásio desde que deixou de ter acne e tem uma longa coleção, talvez demasiado longa, de camisas estampadas com mulheres semi-nuas. À custa disso os vizinhos não lhe falam, porque o acham um porco sexista e gastam o tempo todo em causas pseudo-feministas, por isso, nunca tiveram tempo para uma conversa.

Mas isso tudo pouco importa, porque, naquele momento, todos passaram a ter apenas uma certeza na vida, Rose e Phil tinham sido feitos um para o outro.

Os dias foram passando e os dois tornaram-se inseparáveis. Encaixavam duma maneira quase perfeita e já ninguém sabia onde começava a Rose e acabava o Phil.

A última vez que alguém os viu estavam a olhar as estrelas na costa da Guiana Francesa. Rose ainda fala com a família, Hermann e Jean-Pierre ainda perguntam pelo estado do pequeno explorador que criaram juntos. Todos sabem que nenhum deles vai voltar.

Ela sempre tomou as rédeas da relação e escolhe onde vão. Ele sempre foi talhado para ela ao mais ínfimo pormenor de si e prometeu nunca a largar. Vagueiam sozinhos, eles e o vazio, e ela ensina-o a voar.

O Phil quebrou a sua promessa há duas semanas e aterrou. A outra era elegante e passou num vestido de cauda, iluminou o breu em que viviam há mais de uma década e ele pensou que a podia conquistar. Perdeu-se num brilho que era só fogo-de-vista e a outra do coração de pedra e gelo, nunca mais o largou.

Ele não pode voltar para Ela, porque não sabe voar. Ela não pode voltar para Ele, porque se esqueceu como aterrar.

Daqui a um ano a história deles ultrapassa os limites do sistema solar. Mais longe do que qualquer romance do John Green pode chegar. É verdade. Nenhum deles vai voltar.

Escrever histórias de amor não é complicado. Gerir uma missão espacial a um cometa com período orbital de meia dúzia de anos dependente de uma lata de 100kg com 60 horas de bateria disponíveis é. A sonda Rosetta e o módulo robótico Philae podem muito bem chegar para nos contar se somos ou não restos de um caldo com uma pitada de alien e se há mais sobras dessas pelo universo. Mas devemos permanecer atentos às pequenas coisas, que são o mais importante da vida. Sabiam que a Kim Kardashian consegue equilibrar um copo no traseiro? Há pessoas com dons fantásticos.

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