Crónica

Dia da Criança (ou algo parecido)

Um pedaço de muitas histórias. Um crossover de datas. A frieza do impacto das diferenças culturais e mais uma criança viada que compartilha(ou) a sua história comigo. Agora, neste dia da criança, compartilho com vocês. Não se prendam as datas, o sentimento é o mesmo: brincante.

Era uma grande caixa estritamente retangular. A maior entre todas as outras. De longe a mais preenchida. Tinha outros embrulhos, mas eu já sabia que só esse pacote poderia ser o meu. A minha caixa de presente de dia das crianças. Aaaaaaaaaah, como eu amava o dia das crianças. Tudo era feito pra gente. Vó, vô, tios, padrinhos, eventos na escola, festa na igreja. Todo mundo ia lá em casa e deixava algum embrulho pra mim.

A então minha caixa retangular, estava revertida por um papel de presente iluminadamente colorido e presa por um laço em tons de azul com rajadas na cor vermelha por entre as pontas. Acho que o laço era acetinado, não era uma fita qualquer. Afinal, era o Dia das Crianças, e eu havia passado o mês todo dizendo o que eu queria. A caixa e o embrulho tinham de ser à altura.

Eu sempre tive muitos brinquedos. Não tinha do que reclamar. Talvez por ser uma criança sozinha, as pessoas me davam mais presentes. E no dia das crianças triplicava. Eu amava. Criança é tudo igual. Quando volta das férias, ainda em agosto, a gente começa a aperrear os pais da gente…

Chega setembro, a gente já tem mudado de presente umas dez vezes. Quando a gente é criança, a gente quer tanta coisa. Quer tudo. A gente acha que é só pedir que vem. Mas nesse ano não. Nesse ano eu foquei. Lembro de ter passado o mês de setembro todo pedindo, implorando, esperneando uma única coisa, um único presente — mamãe, me dá os Power Rangers no dia das crianças. Eu quero tanto. Acho que ganhei!

Quando vi o embrulho com aquele laço azul cintilante, fui logo correndo em direção a ele. Não tinha como puxar o laço delicadamente. Eu queria desesperadamente saber o que havia dentro daquela caixa retangular. Rasguei o papel vorazmente na tentativa de desvendar de uma vez por todas se, de fato, meu pedido fora realizado. Será que eu tinha ganhado os meus Power Rangers de presente? Papel pelo chão — mistério desvendado.

Era uma caixa marrom, sem nada, mas, quando abri, lá estavam eles, os cinco Power Rangers: azul, verde, amarelo, rosa e vermelho.

Com o presente revelado, a minha mãe se aproximou e tomou dois de meus bonecos: a ranger amarela e a rosa. E disse que eu poderia brincar com o restante. Não entendi. Eu queria justamente brincar com elas. As que eu mais gostava. Mamãe me disse que eu brincasse com os outros três e que, quando eles quebrassem, ela me daria os outros dois bonecos. Eu não entendi ao certo. Eles eram exatamente iguais: mesmo tamanho, mesma roupa, até as armaduras eram iguais, só as cores eram diferentes. E eu gostava mais justamente das cores guardadas. Deceção.

Não sabia o que fazer. Tinha que bolar um plano pra poder unir os meus Power Rangers de novo. Não é que eu não gostasse dos três que estavam comigo, eram até legais, mas não era a mesma coisa. Tinha que resgatar as outras duas cores.

Dos planos,

Uma vez tentei dizer que havia esquecido na escola; outra que tinha deixado na casa do meu primo. Nada funcionou. Ela disse que só me daria os outros dois quando os três que estavam em minha posse estivessem quebrados. Não havia mais nada a ser feito. Tive que sacrificar os Power Rangers azul, verde e vermelho. Bolei o plano de criança malina. Às vezes eu era cruel.

Ateei fogo na cabeça dos três bonecos. Foi duro. Até chorei. Mas ganhei as rangers rosa e amarela de consolo.

 

(crónica disponível em Criança Viada)

Artigo da autoria de Ícaro Machado