Crónica

CONTA-ME COMO É SER TASQUEIRO…

Pelas movimentadas ruas do Porto, surgem inúmeros espaços onde cada um de nós pode repousar um pouco e aproveitar para beber um bom copo de vinho, ou então, para conviver. E que local mais indicado que uma tasca para servir estes propósitos?

É a caminho da Ribeira, a par de outros estabelecimentos comerciais, que encontramos a tasquinha “Mar Lindo” cujo dono, Alberto Ferreira, nos revela como é trabalhar neste ramo. Na verdade, já com treze anos havia trabalhado num café na região de Paranhos, tendo exercido outras profissões, chegando mesmo a passar por África.

Foi há cerca de oito anos e “com ansiedade de trabalhar” que Alberto abriu as portas da sua agradável taberna aos moradores e visitantes da cidade Invicta e, desde então, são muitas as histórias que tem para contar. “Era raro o dia em que não houvesse chatices, em que não tivesse que pôr alguém lá fora, por desacatos, por falta de educação”, conta. “Já tivemos aqui situações em que virávamos a cara para o lado e os clientes desapareciam sem pagar”, acrescenta o proprietário.

Por estes motivos se percebe que, para além da firmeza que é necessário ter para lidar com situações conflituosas, é precisa dobrada atenção por parte da pessoa que trabalha do outro lado do balcão. Os carteiristas são outro motivo de preocupação de Alberto que já presenciou um assalto a um idoso, conseguindo na altura ainda recuperar uma boa parte do dinheiro. Ser um bom vigilante é portanto fundamental neste tipo de ramos, sendo uma característica que deve constar em trabalhadores deste setor. Por vezes é necessário também saber “recusar a bebida a um cliente porque está embriagado” pois, ficando psicologicamente afetado, começa a perturbar o ambiente.

Apesar de todos os percalços que vão surgindo no seu dia-a-dia o balanço é positivo, é um espaço que proporciona acima de tudo bom convívio e bons petiscos, em que há troca de ideias e de experiências. Na opinião deste empresário, espaços como estes deviam persistir “mas parece que a câmara e as autoridades estão a tentar que isto acabe de vez, o que é um grande erro”.

Alberto acrescenta o facto de que há exemplos de tabernas que, por terem sido modernizadas, passado pouco tempo acabaram por fechar, porque “o pessoal não gosta disso, o pessoal gosta disto assim”. De facto, as tascas pelo seu caráter modesto e tradicional ainda atraem pessoas que encontram neste espaço um espaço em que se faz amigos e em que se fala de tudo, “quase como um barbeiro”, como afirma, e em que também há sempre lugar para bons conselhos. “A minha obrigação aqui é fazer negócio mas eu não conto só com isso”. Verdadeiramente, Alberto já ajudou quem não queria deixar o vício da bebida, sendo notório o ambiente de entreajuda e proteção que neste espaço, à semelhança de outros deste género, se faz sentir.

E, apesar do cansaço evidente por trabalhar tantas horas, uma vez que abre o estabelecimento por volta das seis e só o volta a fechar quando o sol já não se vê, Alberto continua a fazer do “Mar Lindo” um espaço “boa onda”.