Crónica

JÁ NÃO SE PODE DIZER NADA

Todos dias nós tentamos expressar os nossos pensamentos por palavras. Já que estas palavras têm o poder de ferir, consolar, desabafar ou magoar, eu primeiro penso e depois falo, e em temas sensíveis tenho mesmo de pensar duas vezes. Um destes temas é os grupos minoritários.

Ultimamente,  discutir sobre minorias tem sido, no mínimo, polémico. O tipo de discurso que deveria ser utilizado é um que seja politicamente correto (ou P.C., do inglês political correctness), que tem em mente os sentimentos do recetor. No entanto, muitos argumentam que também lhes retira a eles, como interlocutores, o direito à liberdade de expressão; raciocínio errado por várias razões.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que P.C. não é sobre mim, mas sobre o outro. Contudo, eu consigo simpatizar com a frustração de não conseguir encontrar as palavras certas para me expressar educadamente e com atenção aos sentimentos dos outros. Basta não estar suficientemente informado e arrisco-me a balbuciar como um parvo, ou a ofender alguém acidentalmente.

O mais importante é a inclusão, e consequentemente a utilização de linguagem inclusiva. Para haver uma discussão válida sobre os direitos das mulheres, não se pode encher uma sala de homens ilustres e está feito. Pelo contrário, há que, para além de garantir a presença de mulheres, criar um ambiente confortável e seguro para que todos se sinto à vontade em partilhar os seus pontos de vista. Resultando, assim, numa discussão equilibrada com as perspetivas de vários lados, e, principalmente, daquele cuja situação está em causa.

Em segundo lugar, os grupos minoritários não são demasiado sensíveis, mas lutam por respeito. Naturalmente, quem sofre de discriminação quererá deixar de ser. No entanto, uma vida inteira a lidar com incompreensão e intolerância também faz crescer uma armadura contra as palavras que já foram ouvidas muitas vezes. Na realidade, acusações de a sociedade hoje em dia ser hipersensível revela mais sobre quem faz a acusação do que sobre a “sociedade”. O que está a acontecer é que alguém que até agora via como garantida uma posição de poder vê-se confrontado com mudança, e não gosta. Infelizmente, esta mudança ainda é demasiado pequena, e o sistema continua a pertencer ao mesmo grupo de poder de sempre.

Por outro lado, nem todos os que são politicamente incorretos terão más intenções. O que acontece é que as pessoas simplesmente não estão suficientemente informadas e talvez nunca tenham contactado com a diferença, de forma a saber o que é apropriado. Neste caso, as palavras não devem ser tomadas como ofensivas, e ambas as partes devem praticar paciência, tolerância e compreensão, para que todos se sintam bem-vindos. Porque é difícil nos colocamos no lugar do outro, e muitas vezes nem é possível fazê-lo completamente. Infelizmente, apesar de todos estarmos dotados de empatia, não nos conseguimos servir desta ilimitadamente. Apesar de algumas também poderem ser partilhadas por grupos semelhantes, as experiências de cada um são únicas.

Para terminar, tenho de admitir que também nem sempre sou politicamente correto, ou por ignorância, ou por escolha – em grupos de amigos onde não serei mal-interpretado (espero eu!). Apesar disto, reconheço a importância de conversar. Por isso, da próxima vez que acidentalmente ofenderem alguém por uma má escolha de palavras, ofereçam à pessoa um café como pedido de desculpa e oportunidade para ouvir sobre as suas experiências.