Crónica

A MEMÓRIA SELECTIVA

A memória é um dos recursos mais belos e amplos dos quais dispomos. É um viveiro de ocasiões passadas, de sentimentos presentes, e de expectativas futuras. Tudo milita e se interseta neste palco com vários protagonistas, mas com um guião que possibilita que todos se conectem entre si. Trata-se, de facto, de um recurso que, para o bem, é algo que nunca se coloca à parte de uma equação que, por mais matemática que aparente nas sinapses que exige, é muito humana e emocional.

O problema dela, como tudo aquilo que existe, é quando é aplicada para o mal. É por aí que muitas das abordagens erróneas feitas em palco levam a que os sofismos permanecem. Em linguagem atual, chamam-lhe demagogia. É um discurso que se eterniza e que se arrasta por todo o corpo, pensando que é essa a, passe a redundância, “verdadeira verdade”. Tudo aquilo que deturpa ou distorce não pode ser considerado como verosímil. Aliás, afasta-se com significado e significância de uma possibilidade real e sustentável de poder interpretar o passado e o presente, para não contaminar o futuro.

A seletividade da memória atravessa tempos áureos, em que a pós-verdade se assume como uma belíssima filosofia, incorporada pelas vozes com maior ressonância no figurino político e social. No entanto, a verdade é que o belo também é relativo, sendo de subjetiva análise e consideração. No entanto, a própria verdade não o é. Está delimitada a factos, e não a interpretações. Por muito que uma visão esteja aproximada da realidade, a verdade é que não a traduz de forma assim tão fiável para que se torne totalmente verdade. A verosimilhança é o máximo a que pode almejar, embora nem aí se consiga entender totalmente.

A repercussão que a memória seletiva ganha não é de agora, mas adensa-se com o uso das redes sociais, e com a elaboração de uma opinião mais ou menos formada de cada um. É certo e sabido que uma opinião não constitui uma verdade, mas sim uma perspetiva sobre um dado assunto ou uma dada situação. A celeuma ganha novos contornos mal, no entanto, mal se sustém em outras intervenções de certas figuras que apregoam ser as detentoras da verdade, mas partilhando um corpo de valores que não se coaduna com a “verdadeira verdade”. São verdades que, por serem transmitidas por figuras de poder, são assumidas como factos incontestáveis e, como tal, possibilitadoras de conferir um valor de verdade indiscutível a qualquer asserção feita com base nisso.

A memória seletiva e os juízos de valor formatados em discursos cruzam-se com a benevolência dos menos informados e dos menos predispostos a entender aquilo que se diz. Não valorizando partidos, clubes, religiões, ou quaisquer outros tipos de segmentação individual ou coletiva, importa entender se a verdade está presente, se existe uma efetiva verbalização da realidade. Muito é enviesado por essa memória seletiva, que escolhe recordar-se somente de certos aspetos dessa realidade, despedaçando-a de peças importantes. Desarticula-se a transparência da memória, resumindo-a a fragmentos de histórias.

A memória está confiada ao seu detentor. Sendo um instrumento, é necessário que alguém o ative, o estimule, o disponibilize para ser útil a quem o usa. No entanto, aplicada para o indevido torna-se muito danosa, capaz de causar danos irreversíveis e muito sentidos. Há um risco que se traça a negrito e sem aspas, pois provêm das interpretações mais ou menos influídas por gostos, interesses, paixões e oposições. É o risco de não conseguir decalcar o passado. No entanto, a realidade está pronta e munida para isso, após décadas de intervenientes e de protagonistas que fizeram o que quiseram da verdade. A “verdadeira verdade” está caída por aí, e ninguém a quer apanhar. Não é por doer, mas sim por não convir. Não agrada, não se compatibiliza, pois está na hora de construir uma nova verdade. A verdade que, mesmo que não exista, conhece um nascimento abrupto e apressado. Não é de espantar que saia deformada.

A memória seletiva entretém-se, por responsabilidade de quem a utiliza dessa forma, em inventar e em contar narrativas longínquas do sentido da verdade. Nesta transição de eras, há sempre algo de novo a apresentar. Agora, já há conceito para a nova factualidade na atualidade, sendo ele a tal pós-verdade. A “verdadeira verdade”, ou “pré-verdade”, fica para os que desejam ter o trabalho de se bater numa realidade que, apesar de não ser a mais aprazível e abonatória para todos, não se refugia em subterfúgios. As conveniências não são quem mais ordenam, mas sim as verdades que mais orientam. Lamenta-se que se tenha de lutar pelo que realmente é e existe, perante as más línguas dos tempos e dos seus rostos.