Crónica

A DÉSPOTA OPINIÃO INDIVIDUAL

Uma opinião é um ponto de vista. Parte-se deste princípio. É no confronto desta com muitas outras, cujos autores variam, que se chega a consensos e a articulações de recursos em prol desta ou daquela ação ou desta ou daquela situação. No entanto, esse confronto é levado demasiado a sério. Mais do que chegar a uma fase harmoniosa e compreendida pelas duas partes, defende-se a opinião. Mais do que a evolução, o enfoque ilumina a incontestável opinião.

É sempre custoso ver o autor de um ponto de vista a ser refutado e contra-argumentado com êxito. Fica desarmado e desalmado. Isto numa visão redutora, que aponta somente ao criador da opinião e à sua posição. Porém, é esta a realidade na qual se situa muita da discussão, muita da troca dessas perspetivas. A opinião individual está num trono, lugar esse que se torna indiscutível por cada um. Não é possível que esta seja anulada, que seja confrontada e abalada pela apresentação de uma outra forma de ver a situação em causa. Existe uma censura que erradica desde logo aquilo que é adverso à opinião fomentada e construída por outrem. Aquilo que afronta nunca agrada. Em relação a isto, a mente pode ser muito insidiosa.

Mais do que a verdade, o que lhe importa é ver a sua visão vingar. Vale tudo. Por mais que se louve o fim do autoritarismo e do despotismo, ainda há traços absolutistas em cada um. Parece que é herança que se reflete no código genético daquele que não gosta de ver a sua opinião sucumbir perante outra ou mesmo perante a presença ilustre e radiosa da verdade. A monarquia não gosta de ver grupos ou expressões dissidentes. Perante tanto atrevimento, reprime-se tudo o que vai contra a convicção e contra a crença que é subliminar à opinião. Nem que seja eternamente, há um rasgo de despotismo inerente à defesa daquilo que é a perspetiva criada, desenvolvida e trabalhada sobre um dado assunto ou num certo contexto.

Importa também sublinhar que não se deve fazer disto exemplo generalizador. Nem todas as opiniões encaram essas suscetibilidades como negativas. Muitas delas – e muito à conta do seu autor – estão abertas e dispostas a uma discussão saudável e enriquecedora, em que a partilha de visões e de experiências permite reformular e remodelar a própria opinião como criação em bruto. Tal como num projeto assumido pelo seu empreendedor, a sua génese vai-se adaptando à envolvente e, com esta, crescer em conjunto, numa sinergia que acaba por desenvolver ambos simultaneamente. A problemática está no facto de muitos desses juízos se julgarem juízes, possuindo toda e qualquer autoridade sobre a realidade em que atuam. A iluminada divisão dos poderes é sobejamente esquecida nesta ocasião, concentrando todas as atenções para os distorcidos factos que a opinião levanta sobre determinada temática.

Vive-se num período de liberdade de expressão e de opinião, onde o diálogo e a partilha são ferramentas intrínsecas da construção e progressão da sociedade até a um porto equilibrado e sustentável. É um período no qual, por mais infundadas e descredibilizadas que sejam as perspetivas construídas e apresentadas, existe o direito inalienável e – esse sim! – incontestável de as mesmas existirem. Mesmo existindo uma opinião baseada num rol de artigos e de fontes de valor científico elevado, não é esta que vai fazer uso da coroa e do ceptro numa posição de soberania total.

A ciência evoluiu até hoje numa dinâmica de dialética e de uma constante e sistemática discussão sobre o pré-existente e o prestes a ser confirmado e corroborado como a nova linha de conhecimento. Se a opinião fosse déspota, não haveria o heliocentrismo, a gravidade, a relatividade e os diferentes postulados que hoje são tomados como certezas. Uma coisa é certa: a opinião não é nem deve reivindicar qualquer tipo de autoridade indiscutível. Essa, nem a própria vida o consegue, quanto mais uma aleatória e combinatória perspetiva sobre o mundo e os demais intervenientes neste. A beleza está mesmo nessa partilha integrante e intrigante, que confronta e que coloca tudo em questão, mesmo a mais matemática das equações. O fulcro da criação de uma opinião está na democracia como regime político e como sistema de valores. Assim sendo, e fazendo jus à visão desconfortada que muitos têm em relação a quaisquer tipos de autoritarismos e absolutismos, compreenda-se a opinião com expressão artística e problematizada. De si, dos outros, do mundo, num pé de igualdade e de estabilidade.