Crónica

BIOPOLÍTICA

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Autores como Michel Foucault explicam que a biopolítica ou o biopoder é composto por uma série de mecanismos de saber-poder sobre a vida humana. Quer se trate de políticas de alimentação, campanhas de vacinação, migrantes e refugiados, saúde pública, habitação ou urbanização, é relativamente claro perceber o que é que está em causa entre a tirania e a justiça social.

O urbanismo afirma-se precisamente como biopolítica a partir do chamado higienismo no séc XIX na Europa e nos EUA como forma de acudir à pobreza, mas também controlar a classe operária, produzindo e vigiando o seu espaço. O celebrado plano do barão Haussemann de Paris no tempo de Napoleão III é também uma resposta aos movimentos operários de 1848, violentamente reprimidos pelo exército francês. A largueza das novas avenidas seria um obstáculo às barricadas e a linha direita, uma via direta das casernas aos bairros operários. Paris, enquanto organismo vivo, a metáfora preferida do século, seguia a regra básica da biologia e das regras de quem come quem para sobreviver ou apenas para ficar mais gordo.

A higiene, a pobreza, a indigência, o alcoolismo, a prostituição eram palavras que permitiam soltar o assunto das suas condições sociais de produção, despolitizando-o e transformando-o na versão moral mais beata da caridade e do paternalismo. A industrialização rápida e a urbanização do operariado pobre transformaram as cidades em gigantescos pesadelos de lixo, epidemias de cólera ou tuberculose, desgraçados que viviam amontoados e trabalhavam jornadas infinitas por um naco da ganância do capital. Assim, era também a “cidade cemiterial portuguesa” do Porto como lhe chamava Ricardo Jorge no final do séc. XIX, chamando a atenção para a existência de um sistema de saneamento precário e nem o “siphão hydraulico” funcionava, pois “o nosso sifão doméstico, caricatura do bom siphão hygienico, é tudo às avessas. Contornado a dedo, grosseiramente enformado ou antes deformado, nem enche, nem vasa, nem obtura; ao cabo de poucas semanas é uma fossa suplementar, terrivelmente pestilenta”.

Estamos agora noutra fase. Sobram as retretes com sifão e outros dispositivos sanitários, e os despojos brancos e vidrados da urbanização higienista acumulam-se e desfazem-se, enquanto as paletes apodrecem e as silvas se insinuam por entre as curvaturas da loiça. Está a nascer um novo ecossistema nas ruínas da obsolescência e da disfunção do mercado: a passarada, os ratos, milhões de insectos, gatos vadios, eucaliptos, austrálias e ervas das pampas e outros exotismos acumulam-se em grande alegria sem pestilências e planos urbanísticos. A biopolítica alimenta a anarquia da selva – salve-se, pois, quem puder.