Crónica

ÍCONES

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Os ícones são muito úteis. Resumem a complexidade e a contradição numa imagem só, identificando e favorecendo a difusão e a partilha de qualquer coisa, lugar ou ideia posta em imagem. Facilitando ou dificultando, porque não raro acontece formar-se um ataque de nervos em torno de significados completamente distintos veiculados pela mesma linguagem iconográfica. Deixaremos à semiótica essas infinitas discussões.

Toda a gente por cá conhece a polémica do vera icon – a verdadeira imagem – enquanto representação do divino e que é verdadeira porque é produzida sem mediação. O sudário da Verónica (o nome pode existir sem a personagem) é a impressão direta do rosto de Cristo, a sua identidade e essência divina revelada aos humanos. Assim, o interdito de representar a imagem ou a face de Deus pode-se ultrapassar sem sombra de pecado para grande sossego dos iconoclastas para quem a divindade é a palavra, a luz ou outra substância mística que afaste os adoradores de ídolos. Que se saiba desta aura transcendental antes de entrar noutras discussões acerca dos ícones, do seu significado, circulação, uso ou o que for.

Quando as cidades se continham dentro de muros, bastava subir a um lugar alto, como uma torre de catedral ou de castelo e observar em volta – toda a cidade se oferecia aos sentidos como artefacto organizado em volta dum axis mundi, o seu centro funcional ou simbólico. Era fácil representar a cidade-corpo e esse regime visual centrado e hierarquizado facilitava também o centramento dos ícones e a sua clara significação. Nas cidades sagradas, a questão estava ainda mais facilitada porque a sacralização dos lugares tornava mais visível e legítima a sua iconografia.

Entretanto, as cidades deixaram de estar contidas em muralhas ou outros limites físicos. Espalham-se por enormes extensões e geografias, tomando diversas formas, cada qual a mais diferente das velhas ruas, casas e edifícios notáveis da velha cidade. A evolução e as metamorfoses constantes do processo de urbanização aniquilaram a clareza da palavra cidade. A quebra das estruturas sociais fortemente hierarquizadas e dos consensos bastante alargados acerca das visões do mundo fizeram o resto do trabalho: vivido e percebido de forma muito diferente, oscilando entre significados intensamente partilhados e constantes fragmentações sobre o que se pensa que seja isto ou aquilo, a condição urbana explode por múltiplas imagens, lugares, experiências, ambiências, ícones.

Como as coisas são aquilo que o seu regime de visibilidade demonstrar que são, isto é, o modo como habitualmente são percebidas e debatidas, a proliferação dos regimes de visibilidade diferentes tanto é capaz de ilustrar perfeitamente essa proliferação, como, para outros, lançar a confusão total por excessos de relativização. No fundo, para estes últimos, o que está em causa e é percebido como ameaçador, é a perda da cidade-corpo, da nitidez da sua definição enquanto lugar, identidade cultural, ambiência, memória ou outro qualquer dos muitos sentidos que cidade transporta consigo.

Felizmente, o modo de construir imagens e de as pôr a circular facilita estes imbróglios. O procedimento é o seguinte: quem não sabe o que é o Porto, pergunta ao Google que lhe responderá torrencialmente como qualquer motor de busca a farejar na superfície e nos abismos da internet – repositório de todo o conhecimento; faz-se depois uma curta seleção com base naquilo que mais aparece, juntando, claro, preferências pessoais e ódios de estimação; toma-se, então, a poção mágica eletrónica Photoshop e compõe-se a nuvem dos ícones e dos significados em registo de transparência e combinação cromática para prender o espectador; juntam-se algumas doses de harmonia e dissonância para intensificar a curiosidade e o sabor.

E está feito. Depois é só por a circular nas redes sociais e anti-sociais. Sobre iconografia portuense, registe-se também que a nova imagem gráfica adoptada pelo município segue esta estratégia em mosaico, desenvolvendo um vocabulário de ícones que se ajusta ao próprio regime de proliferação icónica que caracteriza os tempos que correm. Tudo claro, portanto.

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