Crónica

(1 HOUR LATER)

Sou da opinião de que todos nós somos uma parte carcaça e outra parte conteúdo, e de que todas as carcaças estão a ser transportadas sob roldanas para chegarem à temida secção de formatação. No entanto, o nosso verdadeiro conteúdo é um sem fim de particularidades que nos distingue e nos permite que sejamos alguém diferente daquele que foi moldado ao nosso lado. E algumas dessas particularidades são aquelas coisas pequeninas que nos iluminam os olhos e nos fazem corar de entusiasmo. Falo daqueles pedacinhos de cada um que são, normalmente, extremamente íntimos e peculiares e que se acumulam na categoria de “aleatoriedades” do nosso ser.

Um desses meus bocadinhos é estranho, sem dúvida, mas perfeitamente assumível: a mudança do horário de Inverno para o horário de Verão deixa-me de sorriso no rosto.

Ora, como não sou uma especialista no assunto, muito humilde e sinteticamente contextualizo-vos quanto ao fenómeno da mudança de horário: esta ideia desvairada de adiantar os relógios e interferir com os tempos de toda a gente foi daquele “gajo” chamado Benjamin Franklin que, para além de político e cientista, também teve a brilhante suspeita de que avançar os relógios uma hora significaria poupar energia. (Perdoem-me a preguiça, mas como não me debrucei aprofundadamente na matéria não tenho mais informação histórica ou científica a acrescentar.)

A verdade é que, provavelmente, as poupanças energéticas são residuais e que, se calhar, as luas ficam descompassadas e os deuses mostram-se aborrecidos com esta brusca interrupção do sono, mas o certo é que a chegada do horário de Verão é, para mim, a chegada de uma série de promessas: brisa matutina a meter-se com os vestidos e com os chapéus; sol a desaparecer por trás dos rochedos enquanto os mais resistentes se atiram pela última vez às ondas; estado de espírito noturno e rejubilante como só no Verão se sente.

Naquele momento em que o relógio marca uma hora a mais, eu já sinto o cheiro do mar e das tardes quentes… por isso, mesmo que no dia seguinte durma menos, eu não me chateio com o Benjamin Franklin.

(Escrita ao som de “Dirty Paws” dos The Monsters and Men)