Crónica

O SEGUNDO SEXO

«Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor

Mas pela vastidão da alma.»

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

Feminismos, políticas e socialismos à parte, no que concerne à balança que pesa a igualdade entre géneros, todos sabemos que há uma diferença abismal entre Homens e Mulheres. Vivemos numa Sociedade ainda aquém da equidade entre géneros. Esta é a Sociedade que exige que a Mulher trabalhe duas vezes mais arduamente do que o Homem para que veja o seu valor reconhecido ainda assim de forma desigual, inferior.

Ao invés de uma emancipação da Mulher, testemunhamos antes uma marginalização do sexo feminino, o segundo sexo, o sexo inferior ao Homem, incapaz de ser comparado ao sexo masculino sem uma abismal diferença entre ambos. A valorização da Mulher na Sociedade não começa com conceções como o feminismo ou pós-feminismo que geram discordâncias dentro do género. Chamemos-lhe antes Humanismo, esquecendo quaisquer sentidos filosóficos outros desta conceção, porque antes de sermos Mulheres, somos Seres Humanos e, como tal, a nossa valorização começa aí, sem desigualdades. Somos Seres Humanos, quer sejamos Homens, ou Mulheres, e como Seres Humanos devemos lutar por ser vistos como figuras equitativas, em plena equidade perante si.

Como Mulher, o dia 8 de Março não é diferente de qualquer outro dia do ano. Não é nesse dia que tenho uma singular epifania ou grito um bem-haja por ser Mulher. De todo. Contudo, este ano, precisamente a 8 de Março, num dos meus hábitos rotineiros de tomar um café ao início da tarde, foi-me oferecida uma flor, em comemoração deste dia que foi atribuído a nós, Mulheres. Embora não deixe de ser um belo gesto, nem a revolução de Abril se conquistou com flores, deixemo-nos de eufemismos e imagens delicadas que atenuam e acima de tudo escondem a dureza e o quão brutal é a realidade.

As revoluções fazem-se com as vozes que querem fazer-se ouvir, com coragem, e, sobretudo, com determinação pela mudança, por um legado diferente, legado este pelo qual valha a pena celebrar o 8 de Março como o dia da Mulher. Mulher. Ser que após vários séculos de luta e vidas perdidas em batalhas, alcançou a igualdade entre géneros. Assim, há que honrar os nomes de todas as mulheres do passado, do presente e do futuro que lutam por este que é, não um capricho, mas sim um direito.

 

Observação: O título desta crónica é uma referência à obra de Simone de Beauvoir com o mesmo nome, publicada no ano de 1949, onde a filósofa faz uma reflexão sobre o sexo feminino.