Crítica Opinião

EUPHORIA: Será mesmo digna de um Emmy?

Euphoria é uma série da HBO com muito sucesso, cujo lançamento da segunda temporada teve lugar no início de 2022, causando imenso furor nas redes sociais a cada novo episódio lançado. Contudo, será este êxito merecido e digno de ganhar um prémio Emmy, como muitos afirmam?
Por Inês Cardoso

Recentemente, foram anunciadas as nomeações para os Emmy Awards 2022 – evento a decorrer no dia 12 de setembro – e não foi possível deixar de reparar na presença relevante da série Euphoria e dos respetivos atores nas diferentes categorias.

Para muitos, trata-se de um facto esperado, mas pouco merecido – pensando sobretudo na falta de coesão da história, que acarreta à existência de pontas soltas e enredos abandonados a meio, bem como a falta de realismo visual da série. Afinal, nenhum estudante de ensino secundário usaria as mesmas roupas, maquilhagem ou acessórios que as personagens apresentadas para um dia normal de escola. Contudo, o sucesso da série deve-se a outros motivos, sobre os quais vale a pena refletir.

A apontada falta de realismo visual da série serve, no fundo, para construir a identidade visual marcante de Euphoria, para além de que o foco da série não é o realismo visual, mas sim o realismo emocional, através do qual o público facilmente se relaciona com as emoções das personagens, com mérito para o bom desempenho dos atores.

Muitos destacam o bom trabalho de Zendaya, que na série interpreta Rue, uma adolescente toxicodependente e que, consequentemente, acaba por se colocar em situações perigosas ou de extrema tensão e tristeza. A atuação nestes momentos exige muito talento para a execução, uma vez que se tratam de momentos pesados e intensos. Porém, Zendaya está perfeitamente à altura do papel, conseguindo transmitir ao espectador o pânico, a raiva, e todas as emoções sentidas pela personagem de uma forma muito real.

A cinematografia e fotografia são, em grande parte, o que torna a série tão característica. Os visuais estão relacionados à paleta de cor, na primeira temporada mais voltada para o roxo e na segunda para o amarelo, havendo, porém, sempre uma forte presença do azul, vermelho e tons fortes, que permitem transmitir os sentimentos e emoções intensos comuns na adolescência. A escolha de cores e luzes em cada momento da série torna a experiência muito imersiva e permitem transmitir com êxito as emoções vividas pelas personagens. Assim, temos a presença do azul em momentos de ansiedade, vermelho em alturas de perigo ou paixão, e ainda momentos em que as personagens são destacados por holofotes e jogos de luzes, conferindo um cariz mais teatral à série e que permite transportar o espaço emocional da personagem para o espectador.

Também os próprios cenários contribuem para comunicar com a narrativa e personalidade de cada personagem, permitindo vivenciar os problemas interiores com os quais se estão a debater, e em alguns casos, mostrar até o seu amadurecimento. A título de exemplo, temos o quarto de Maddy, um quarto cor-de-rosa, feminino e infantil na primeira temporada, mas que na segunda temporada surge suavizado, traduzindo o seu crescimento e desenvolvimento para alguém mais forte e independente. Um outro exemplo é o quarto das duas irmãs Cassie e Lexi. A localização de cada uma das camas num canto oposto do quarto e a posição mais elevada de uma cama em relação à outra, demonstra o distanciamento emocional que as duas sofreram, transposto para a sua relação na vida enquanto irmãs.

Algo muito vital para a série e meticulosamente pensado pela equipa de produção foram os figurinos e maquilhagens usadas. Aliados aos cenários, estes elementos permitem expor as emoções dos personagens e mostrar os seus conflitos internos. Tomemos por exemplo Jules:  uma adolescente trans que no início da série utiliza cores vistas pela sociedade como bastante femininas, como rosa e tons pastéis. No entanto, na segunda temporada ela surge de calças, tons mais escuros, e com o cabelo curto. Tal permite demonstrar a mudança que ela sofreu na sua mentalidade: A sua feminilidade não residia no que ela vestia, mas sim no seu interior, pelo que ela não necessitava de todos aqueles elementos estereotipadamente vistos como femininos.

Um outro grande exemplo é Maddy, que utiliza a maquilhagem como armadura e como grande fonte da sua autoconfiança, sendo esta uma maquilhagem intensa, pesada e com delineados grossos. Quando Nate – o seu namorado na primeira temporada– a agride, vemos que a maneira como ela comparece à escola no dia seguinte é totalmente diferente da maneira como ela se vestiria habitualmente.  Aparece sem qualquer maquilhagem, com calças e casaco a cobrir totalmente a sua pele, a simbolizar a “armadura” danificada. Há ainda um outro momento onde a maquilhagem refletiu o seu interior. Foi na segunda temporada, onde Nate – agora seu ex-namorado – a ameaça, e o eyeliner de Maddy, ao contrário de todos os que foram vistos ao longo da série, é fino e frágil, demonstrando a sua vulnerabilidade naquele momento.

Todos estes elementos, em conjunto com os ângulos, movimentos dinâmicos da câmera, e com a banda sonora com um toque um tanto quanto trippy, produzida pelo artista Labrinth, conferem um toque único à série, onde a vida de jovens de secundário e as suas emoções são contadas de uma forma quase artística e teatral, que comunica tão bem ao público as emoções das personagens.

Afinal, com uma identidade visual tão bem conseguida e com uma atuação que faz a todos os espectadores sentir as emoções vividas pelos protagonistas, não admira que todos os elementos se tenham tornado virais, e que a atuação comova tantas pessoas, sendo tão elogiada e partilhada nas redes sociais. Mais ainda, faz com que não seja possível afirmar que a série, e principalmente os seus atores e produtores, não mereçam qualquer Emmy.

Artigo da autoria de Inês Cardoso