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O pseudoativismo de Wimbledon

Após proibir atletas russos e bielorrussos de participarem na competição, Wimbledon injustiça pessoas que colocaram em risco as suas vidas e coloca em prática um boicote político impertinente.
Por Olavo de Freitas

Wimbledon é o mais tradicional torneio de ténis do mundo. É um dos quatro Grand Slams, o único em que se joga em relva, o único em que os jogadores devem usar apenas branco. Recentemente, tornou-se também o único torneio a banir jogadores russos e bielorrussos. A decisão foi anunciada oficialmente pela organização do torneio.

A justificação utilizada foi a de que o “desporto não deve se permitir a promover o regime russo”. O comunicado é no mínimo cómico. A motivação dada ao banimento não afeta sequer a Rússia. Nenhum dos jogadores tem ligação ao governo russo. Rublev, um dos jogadores afetados, passou a sua adolescência inteira fora da Rússia a treinar em Espanha.

Ironicamente, Wimbledon ainda vende direitos televisivos a empresas chinesas de streaming que têm relações com o Partido Comunista Chinês. A ditadura promovida pelo PCC promove o genocídio dos uigur, reprime arduamente grupos separatistas de Hong Kong e apresenta um conservadorismo com relação a questões étnicas e de género que não tem lugar no mundo moderno. Além disso, e numa situação de mais interesse ao mundo do ténis, o seu ex-vice-primeiro-ministro, Zhang Gaoli, foi acusado de abuso sexual pela tenista Peng Shuai.

Os únicos sinais de vida da atleta desde as acusações são vídeos e imagens de propaganda chinesa. Num deles, ela aparece feliz, num quarto medonhamente repleto de peluches. Nele, Peng Shuai nega que foi vítima de abuso e diz que está feliz. Curiosamente, também diz que está a falar em chinês porque não sabe inglês, embora já tenha demonstrado, diversas vezes, fluência na língua.

Um país que coloca em risco a saúde de uma jogadora do circuito feminino de ténis e que é diretamente ligado ao seu desaparecimento não é punido. Um país que pratica genocídio (assim como a Rússia) não é punido. Um país que injeta uma fortuna anualmente em Wimbledon, obviamente, não é punido. NBA, John Cena, e várias outras pessoas e instituições já mostraram várias vezes que não se brinca com a China e voltaram atrás em declarações e afirmações. Wimbledon não abdica do dinheiro.

O banimento dos atletas russos é uma típica demonstração de pseudoativismo: constrói uma oposição clássica entre o bem (Ocidente) e o mal (Rússia), mas sem nenhum objetivo concreto. Wimbledon acaba por se contradizer, pois escolhe o mal que vê, é seletivo. A Rússia não tem dinheiro para comprar o seu alinhamento ideológico, mas a China tem.

Na tentativa de tomar uma posição política clara, acabou por ser hipócrita e praticar um gesto vazio, que pune jogadores russos que não têm relação com a guerra, além de fomentar na população russa uma ideologia anti-Ocidente ainda mais forte, posto que o torneio se torna um exemplo da perspectiva putinista, de “mais um ataque” à cultura russa.

Torneios como a Copa Davis têm atletas que são separados por nação e a Rússia tem os seus representantes. Num torneio como esse, em que há um senso de equipa e cujo princípio é o patriotismo dos atletas, faz sentido banir a Rússia como federação. Uma competição assim seria utilizada como veículo propagandista russo e promoveria a ditadura putinista. Contudo, um torneio como Wimbledon, que não é baseado na nacionalidade dos atletas, não deveria proibir um tenista de participar por causa do seu lugar de nascença.

Jogadores russos como Daniil Medvedev e Andrey Rublev já se manifestaram publicamente contra a guerra: colocaram em risco não só as suas vidas, mas as de suas famílias, que estão até hoje num país governado por um maníaco. Mesmo assim, esses indivíduos foram punidos não pelo que pensam, não pelo que defendem, não pelo que são de facto, mas pelo que são rotulados. Os jogadores russos estão a ser discriminados. Eles não querem a guerra, eles não têm relação com ela, mas são tratados como se tivessem feito algo errado.

Poderiam ser feitas ações realmente significativas, como doar parte do lucro a ONGs de ajuda humanitária à Ucrânia, ou até mesmo permitir que jogadores usem as cores da Ucrânia em protesto (algo que seria histórico, posto que os tenistas em Wimbledon sempre foram obrigados a usar branco). Porém, foi feito um boicote fraco, vazio de ideologia. Infelizmente, Wimbledon tomou a rota irracional e inútil.

Felizmente, porém, o boicote não foi unilateral. A ATP e a WTA já anunciaram que Wimbledon não contará mais com os pontos para o ranking e, portanto, todos os pontos conquistados na edição deste ano e do ano anterior serão removidos. Isso já fez com que alguns competidores desistissem de participar no torneio.

Vários jogadores também se manifestaram contra o boicote de Wimbledon e ressaltaram o fator discriminatório. Wimbledon, como esperado, não mudou de posição. Isso porque, para Wimbledon, o que importa não é boicotar a Rússia, é fingir que luta por algo. Wimbledon não mostra coragem, muito menos ativismo, mostra apenas que desistiu de um mercado fraco para disfarçar as suas outras obscuridades.

Ao invés de outras empresas que fizeram isso para melhorar as suas relações públicas ou por medo de serem sancionadas, Wimbledon não fez esforço nenhum para enganar o público. Transformou russos inocentes, que também são vítimas de uma guerra, em seus reféns. Uma luta sem causa não é luta, é violência.

Artigo da autoria de Olavo Freitas