Artigo de Opinião Opinião

O princípio da incerteza

O guião para o início da vida é cada vez mais cuidadosamente delineado, mas o choque com a incerteza da realidade da vida adulta leva a questionar se estaremos, como sociedade, a preparar o futuro dos jovens da melhor forma.
Por Pedro Alves

 

O que é que tu queres ser quando fores grande? Estudar, ter boas notas, escolher um curso, obter um diploma, arranjar emprego. O guião é fácil e está implicitamente definido para todos. Os primeiros atos desta peça são executados na perfeição. O ciclo estudar-exame-descanso parece não ter fim. Quando é que eu vou ter tempo e dinheiro para ter a minha independência? E, de repente, chega-se ao mar. Quão vasto é o mar, imensidão até ao horizonte do desconhecido. O curso universitário termina e há uma infinita possibilidade de escolhas e, ao mesmo tempo, parece não haver nenhuma, que nos agrade, pelo menos. O guião estava escrito, sempre disse que queria aquela profissão, não era suposto agora tê-la? Oh, fundamental erro de planeamento, não bastava apenas querer?

Talvez uma das maiores falhas na sociedade ocidental moderna, ambiente no qual cresceram as gerações millenial e pós-millenial (Y e Z, respetivamente), foi a criação de uma sensação de total controlo e zero risco, onde basta querer e o futuro concretiza-se. Daí que o choque com a realidade que se recebe à saída da faculdade possa ser grande. Em Portugal, particularmente, uma economia estagnada e pouco desenvolvida levam a que um quarto dos trabalhadores sejam forçados a encontrar emprego abaixo das suas qualificações. Mais ainda, metade dos jovens portugueses não se sentem realizados no emprego que desempenham e 72% dos jovens empregados recebem menos de 950€ líquidos por mês. Particularmente, para a geração nascida nos anos 90, o incremento salarial por cada ano de escolaridade a mais é o menor de todas as gerações desde 1940.

O aspeto salarial leva-nos aos atos seguintes no guião. A seguir ao “boas notas-diploma-emprego”, há o “sair de casa dos pais-casar-ter filhos” (ordem arbitrária). E estes fluxogramas do senso comum estão mutuamente interligados, pois o primeiro deveria dar-nos a independência financeira para iniciar o segundo. No entanto, o sonho do que queremos ser pode esbarrar no pesadelo da escassez financeira e o sonho da independência financeira pode perpetuar o pesadelo da não-realização pessoal.

Por estes motivos, a pergunta “o que é que queres ser quando fores grande?” incute um ónus de controlo que é irrealista. Seria mais benéfico perguntar “dadas as circunstâncias socioeconómicas dos locais/ países, que vês como potenciais locais para viver, e as tuas ambições pessoais, vais delinear um plano para trabalhar em que área?”. Claro que um adolescente de 16-17 anos poderá ficar assoberbado com uma pergunta desta complexidade, embora ela torne mais claros os fatores que estão em jogo. Contrariamente, a simplicidade da pergunta “o que é que queres ser quando fores grande?” é reconfortante a curto-prazo, porém a traição a longo-prazo pode ser esmagadora. E, assim, voltamos ao tema do meu último texto (O dinheiro cai do céu in JUP, 9 Jan 2022): é sempre mais fácil olhar para o curto-prazo, já que, a longo-prazo, a incerteza é maior.

Artigo da autoria de Pedro Alves