Artigo de Opinião Opinião

Não olhem para cima: a barbaridade da guerra de Putin

Supostamente no apogeu civilizacional, eis que assistimos ao eclodir de mais uma guerra, permanecendo a sua natureza a mesma de tantas outras que a História conheceu - ambição desmedida, destruição massiva, deslocamento de refugiados ...
Por Mariana Batista Maciel

Não faltarão muitas décadas para que os nossos filhos estejam a estudar, nas aulas de História, a invasão russa da Ucrânia em 2022 e a depreender que, repugnantemente, a História é um círculo. Vai alternando entre diferentes configurações ao longo do tempo, com fases em que adquire o brilho da luz solar e outras em que se transfigura num meteorito em risco de colisão com a Terra, terrivelmente ameaçador da humanidade. Invariavelmente, a certa altura, chegamos ao mesmo ponto do círculo em que já estivemos, a História repete-se, e aí percebemos que realmente a missão mais frustrante e infrutífera que podemos conceber é a mudança de mentalidades.

Como vamos prevenir os nossos filhos de caírem no niilismo e na descrença perante o futuro da humanidade quando descobrirem que o apogeu de civilização, união e segurança que, inocentemente, pensávamos que o continente europeu tinha atingido, afinal, não passara de mera ilusão? Provavelmente alimentada pelos privilégios (frágeis!) da Europa Ocidental, pelo admirável progresso na literacia da população na última metade do século, pela velocidade vertiginosa da evolução da tecnologia e pelo bem estar económico.

Hoje atravessamos, indubitavelmente, uma fase meteorítica. Ainda sem ser dada por terminada a batalha metafórica contra a pandemia de coronavírus, a Europa de Leste vive, literalmente, tempos de confrontos bélicos. A temível invasão militar da Ucrânia pela Rússia, liderada por Vladimir Putin, teve início a 24 de fevereiro.

Passadas três semanas desde o início desta guerra bárbara, aliás, como todas as guerras, são já muitas as consequências nefastas para os ucranianos: vidas interrompidas, cidades destruídas, lares desmoronados, ataques cruéis a maternidades, pais, filhos e avós mortos ou desparecidos, sonhos sepultados e uma imensidão de ucranianos a sacrificar o que construíram durante toda a sua vida, lutando pela sobrevivência ao deixar o país natal.

Mais uma guerra e a natureza permanece a mesma de tantas outras que a História conheceu – a luta pela supremacia, pela conquista de território, pela garantia da solidez das classes dominantes, sem olhar a meios para atingir os seus fins irracionais. A única diferença é o armamento mais evoluído.

Os atritos entre a Rússia e a Ucrânia não começaram dia 24. Fizeram-se sentir em vários momentos, nomeadamente na Grande Fome da Ucrânia (1932-33), na Segunda Guerra Mundial, na época estalinista e, mais recentemente, na conquista da Crimeia pela Rússia em 2014.

Tal como escreveu Yuval Harari na obra “21 lições para o século XXI”, a Rússia é o exemplo paradigmático de um país que procura instituir novos tipos de democracias iliberais e ditaduras absolutas.

Putin, que começou por integrar a KGB – os serviços secretos russos -, é presidente da Rússia desde 2012, cargo que já tinha exercido de 2000-2008, tem uma fome de poder insaciável, já para não falar da ausência de escrúpulos. Tem o cérebro da vigarista Anna Delvey – age como se fosse o homem mais poderoso do mundo, vocifera, lá de cima, incoerências e discursa com base em pressupostos que sabe serem irreais, mas teima em tentar enganar todos com as suas palavras, inclusive a si próprio. E tal como a protagonista da série baseada em factos verídicos mais vista da Netflix nos últimos tempos, também Putin conseguiu subir mais além do que deveria. Como afirma Nuno Lobo Antunes “É preciso ter muito cuidado com o que se deseja, porque, regra geral, consegue-se”. Esperemos é que o fim seja tão ou mais infeliz e que a revolta dos russos contra a guerra que Putin encetou e as consequentes sanções que a UE, os EUA e o Canadá, entre outros estados, estão a impor à Rússia culminem, o mais brevemente, num fim prematuro do quarto mandato do presidente russo.

Para já, o risco desta guerra se alastrar diretamente a Portugal é diminuto, embora já se façam sentir alguns efeitos indiretos, sendo o mais visível a subida de preços dos combustíveis, havendo também informação de que alguns supermercados já impuseram o racionamento de alguns produtos e mesmo de que já se assiste à falta de outros nas suas prateleiras. Contudo, é mais do que altura de por os eleitores de partidos extremistas – fica a dúvida em qual delas, extrema esquerda ou extrema direita, Putin e o seu governo se enquadram – no nosso país a repensarem as suas opções políticas e as consequências que um voto em esfomeados de poder pode acarretar, ainda nesta minúscula fração de tempo que cada um de nós passa na Terra, continuamente na eminência de colisão com um meteorito.

Artigo da autoria de Mariana Batista Maciel