Crónica Devaneios Opinião

Escitalopram, venlafaxina e fluoxetina; e alprazolam a gosto

Reflexões sobre tarja preta, conselhos e suicídio.
Por Débora Magalhães Binatti

O problema de tomar antidepressivos minimamente adequados ao seu quadro clínico é que você para de querer Se Matar e passa a simplesmente Querer Morrer. O que, sem dúvida, é muito pior.

Não me entenda a mal. É, de facto, um conforto. Saber que você não vai acordar um dia, pegar o metro até São Bento, caminhar no centro histórico e depois se atirar no Douro. As crises tornam-se manejáveis, passa a ser mais fácil diferenciar pensamentos automáticos e distorções cognitivas da lógica. Não que você pare de sentir as distorções cognitivas e os pensamentos automáticos, porém, pelo menos, tenta acreditar menos neles. É um conforto, de facto. Especialmente para quem te ama e, por conseguinte, não quer te perder. Mais para essas pessoas do que para você.

Porque a instabilidade do querer Se Matar é reconfortante. Ela traz esperança, traz controle. Se tudo der errado, tem uma saída. Ponte, pulsos, corda, remédios, tiro. Escolha ao bel-prazer; você não vai conseguir de primeira, mas alguma hora vai. Você tem um plano e o plano é seu. Todo seu. A escolha é sua, mesmo que dentro da sua instabilidade e irrealidade. Traz esperança. Conforto até.

Mais conforto do que Querer Morrer, Parar de existir. Porque o sentimento é o mesmo. O vazio continua lá. A dor continua lá. A existência ainda é pesada e respirar é cansativo. Levantar da cama ainda é uma tarefa herculeana e sua vida continua sendo desagradável. O reflexo que está no espelho não muda, tampouco as suas opiniões sobre ele. A rotina medíocre continua a mesma e os seus fracassos também. Seus heróis continuam mortos de overdose e você continua se sentindo sozinho. Desolação. Mas agora não tem plano B. Não tem escolha.

Querer Morrer é pior do que querer Se Matar porque tira de si a única coisa que você tem: a esperança de tudo isso acabar.

Os psicólogos dizem que o Tudo Isso é o sofrimento que se passa e que os ímpetos suicidas são tentativas de escapar à dor e não à vida em si. Dizem também que com o tratamento adequado é possível fazer essa perceção e o Querer Morrer vai embora.

Minhas tias, por outro lado, dizem que Tudo Isso é falta de Deus.

Sobre Deus, uma antiga professora me deu um livro sobre ele, na tentativa de me ajudar a encontrar a minha própria espiritualidade e isso me ajudar no trajeto de “Quero Morrer, mas estou medicada o suficiente para não querer Me Matar, sendo que ainda podemos melhorar, lembre-se que não pode beber álcool e o ideal é evitar café e açúcares”.

Nesse trajeto de espiritualidade comecei a acender incensos e fazer defumações. Vai que funciona.

Eu tenho tentado. Meus pais dizem que o que importa é que eu tenho tentado.

De toda forma, que importa mesmo é que tomar antidepressivos adequados faz com que você passe de querer Se Matar para Querer Morrer. O que é o primeiro passo. Eu acho. Deve haver outros passos.

Quem sabe?

Artigo da autoria de Débora Magalhães Binatti