Crónica Opinião

Dança da Chuva

Num janeiro de temperaturas da estação passada e num fevereiro a antecipar a seguinte, o tempo, aquele marcado pelos relógios, tem-se mostrado uma condicionante evidente para aquele que tem feito os nossos dias brilhar mais do que o normal.
Por Joana Oliveira

Este agora já não tão recente ano parece ter engolido qualquer vestígio de chuva que por aí andasse, talvez numa forma de compaixão para com aqueles que desde há dois anos se depararam com um dia-a-dia cinzento, faça chuva, faça sol, embora me pareça improvável. Porque haveria a Terra de ter piedade por quem não a tem por ela? A mim parece-me que a Mãe Natureza apenas está a pregar uma partida aos que tanto gostam de a estragar, e, com certeza, não é de mimos. Uma pequena partida em troca de um pouco da nossa atenção, o que parece ter conseguido, ainda que seja residual tendo em contas as proporções a que isto chegou e ainda há de chegar.

Parece-me também que a grande Mãe está num processo para confirmar aquilo que, atualmente, nos parece óbvio: o Homem foi feito para a Natureza, já a Natureza não foi feita para o Homem. Ela está apenas a tentar reverter os papéis, ordená-los da devida maneira e lembrar os seus habitantes de que ela é a anfitriã e que o nosso dever como seus convidados nada mais é do que zelar por ela. Sendo ela incapaz de fazer mais do que pedir socorro, tem vindo a gritar, não um grito ensurdecedor, por agora pelo menos, mas um grito sufocado, ao ouvido de cada nação que nela habita, um grito de quem já perdeu a voz e implora para não perder a visão.

Por isto, vivemos uma primavera no segundo mês do ano, numa Terra que, ainda que seja setenta por cento constituída por água, está sedenta. E viremos a viver, como já aconteceu, um verão lagrimoso, e talvez um outono abafador, senão neste ano solarengo de 22 sóis, noutro que por aí virá. Ainda que as nuvens chorem nos próximos dias, apenas uma depressão salvaria os nossos campos ressequidos. Por isto não deveria custar tentar atender um pedido tão urgente de alguém que já tanto fez por nós, seres pobres e ingratos que foram honrados com a tarefa de proteger a casa de tantos outros seres tão mais impotentes do que nós.

Talvez não seja demasiado tarde para aliciar a Natura para o nosso lado, celebrá-la, a ela que já há tantos anos por aí anda e que não teve direito a um aniversário digno, talvez porque nenhum de nós tenha presenciado o momento do seu exato nascimento, ou então talvez porque todos nós estejamos demasiado emergidos na rotina das nossas vidas para nos lembrarmos de tais detalhes. O tempo irá passar, a nossa situação vai piorar e muita coisa no mundo que conhecemos irá, infelizmente, mudar. No fim de tudo, se nada resultar, nada mais podemos fazer senão, porventura, uma dança da chuva.

Artigo da autoria de Joana Oliveira