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Dois utópicos entram num bar

Separados por um gigante oceano ideológico, mas próximos numa característica comum, Livre e Iniciativa Liberal são dois partidos utópicos. Mas Rui Tavares e João Cotrim de Figueiredo merecem um lugar no parlamento português.
Por João Paulo Amorim.

A fragmentação política a que hoje assistimos no cenário português não será necessariamente negativa nem é obrigatoriamente significado de polarização. Um parlamento partido em mais do que apenas metades é um parlamento saudável e a lógica de que todos os partidos têm que agir como potenciais partidos de governação é falaciosa. Há medidas que nunca seriam discutidas e até aprovadas como legislação se não fosse pelos “pequenos” que, representados por 1 ou 2 deputados, lá tentam que a sua voz se ouça entre os tubarões que ainda berram mais alto.

Separados por um gigante oceano ideológico, mas próximos numa característica comum, Livre e Iniciativa Liberal são dois partidos utópicos. No mínimo, desfasados da realidade portuguesa. Vai ser a flat rate, completamente avessa à igualdade de oportunidades, que vai salvar Portugal? Não. Vai ser o Rendimento Básico Incondicional que nos vai tirar deste buraco? Ainda menos.

Mas é principalmente por causa de Rui Tavares e de João Cotrim de Figueiredo que essas medidas estão hoje a ser discutidas em Portugal. Esse modelo de debate e discussão pública, ao qual o país não está nada habituado, é saudável. É por isso que considero, apesar de não concordar totalmente com as medidas propostas, que estas duas figuras políticas fazem bem à política nacional.

A medida relativa ao modelo de financiamento do Ensino Superior, proposta pelo partido de Cotrim de Figueiredo (entretanto retirada) é assustadora. Encarar o 12º como um ano zero não será também a prioridade para mudar o ensino português. Estas são medidas que aparentam querer mais chamar a atenção para o partido que as propõe do que propriamente serem a melhor opção de progresso para o país.

Rui Tavares é um caso singular. Peca por ser mais um pensador do que um político. Um raro intelectual perdido entre pacóvios. Mas é dos poucos que tem uma visão completamente adaptada a 2022 e ao século XXI. Ou seja, tem uma qualidade rara da classe política: visão de futuro. Um europeísta nato que, infelizmente, não conseguiu trazer mais para cima da mesa a questão da Europa, especialmente quando há um conflito a bater-nos à porta. Se for eleito, espero que limpe a imagem do partido, depois de ter sido representado no parlamento por Joacine Katar Moreira, o maior erro de casting da política portuguesa.

O líder da Iniciativa Liberal, no debate entre os dois candidatos, lá foi repetindo, em crítica a Rui Tavares, que as suas medidas nunca irão funcionar “a menos que se advogue um homem novo, uma qualquer utopia”. Na verdade, esta crítica também serviria se viesse do lado oposto, principalmente por acreditar cegamente no mercado. Já a aversão às alterações climáticas é confrangedora. Nunca irei confiar num partido que promete um “choque”, seja a que nível for.

Ambos os partidos tentam captar o voto dos mais jovens, mas tem sido a Iniciativa Liberal a desenvolver o melhor trabalho nesse campo. Com uma forte aposta nas redes sociais (a nova realidade à qual os políticos teimaram em adaptar-se), com cartazes satíricos, com uma visão liberal da sociedade e com arruadas a beber cerveja com “putos”, o partido vai certamente agarrar uma grande fatia desta faixa etária.

E para quem defende uma redução do número de deputados no parlamento, relembro que, sem o modelo atual, muitos dos partidos pequenos ainda não estariam presentes nele. O parlamento português é perfeitamente proporcional. O necessário é promover exatamente o que esta medida iria dificultar: a garantia de uma presença justa dos partidos com menor dimensão. Em certos círculos eleitorais, votar algo que não seja PS ou PSD é equivalente a deitar o voto ao lixo.

Artigo da autoria de João Paulo Amorim