Crítica Opinião

Dopesick desvenda os bastidores da terrível epidemia de opioides nos EUA

Dopesick é um abrir de olhos para a ganância da indústria farmacêutica, que criou uma das piores epidemias da história dos EUA, com a cooperação de médicos, farmacêuticos e políticos, mesmo tendo provas dos prejuízos para a saúde pública.
Por Bruno de Azevedo

Um assunto real e importante nem sempre resulta numa boa produção, mas resultou com Dopesick. A série original conta a história de como uma droga se tornou numa terrível epidemia nos Estados Unidos da América, através de receitas médicas e para lucro da indústria farmacêutica.

Dopesick é um abrir de olhos para a ganância dos fabricantes que encorajaram médicos, farmacêuticos e políticos a aceitar uma substância viciante mesmo com todas as reivindicações sobre os seus prejuízos para a saúde pública. Esta epidemia foi a mais grave no país durante as últimas duas décadas e foi escondida durante demasiado tempo, até agora. Graças ao livro best-seller do New York Times de Beth Macy Dopesick (Dealers, Doctors and the Drug Company that addicted America) e à série homónima da Hulu, agora em exclusivo no Star+ (integrado no Disney+), a história é contada ao detalhe, com uma mistura magistral de histórias pessoais de vítimas do vício e de factos reais, concretos e duros.

A série mostra OxyContin a ser apresentado ao público como uma “droga milagrosa”, impingida aos médicos como não viciante. Os empresários alegavam que apenas em menos de 1% dos consumidores geraria dependência, para desconfiança e surpresa dos médicos.

O Dr. Samuel Finnix (interpretado por Michael Keaton, também produtor da série) trabalha por paixão ao seu ofício, ao ponto de ir a casa de pacientes mais frágeis verificar se estão bem e tomaram a sua medicação. No entanto, apesar da resistência em prescrever OxyContin e de inicialmente estranhar que um medicamento tão eficaz causasse tão pouco dependência, começou a receitá-lo aos seus pacientes.

Dopesick vai transportando-nos para trás e para a frente no tempo, ao longo de vários momentos da história desta epidemia, desde que o analgésico entrou no mercado, em 1995. Vemos, portanto, a perspetiva do médico enquanto se envolve no sombrio negócio da Purdue Pharma, entrelaçado também com os momentos em que se apercebe da gravidade da situação e da sua responsabilidade no caso, e o assume. Uma das primeiras cenas é um julgamento em que Finnix testemunha e, quando questionado acerca da percentagem de pacientes que geraram dependência face à OxyContin, responde, apreensivo, que foram mais que os 1% prometidos. A tensão na sua resposta prepara-nos para descobrir quanto mais que os 1% foram os afetados pelo opióide. Esta epidemia assombrou os Estados Unidos da América por mais de duas décadas e foi a mais grave, entre a SIDA e o coronavírus.

Ao ver Dopesick, somos envolvidos na jornada dos protagonistas da série à procura de evidências significativas para provar aquilo em que acreditam. No desenrolar dos episódios, assistimos à sua dificuldade em chegar às fontes e obter informação através delas, dado a sua luta ser contra a poderosa e respeitada família Sacklers, filantropos e proprietários da OxyContin. Um dos alvos de investigação foi o processo de aprovação da droga, que envolveu o DEA, administração americana do combate às drogas. Não é suposto uma entidade responsável pelo controlo de drogas, aprovar a prescrição de um opióide. As respostas que os heróis de Dopesick vão encontrar face a estas dúvidas vão chocar os espetadores com a ambição desmedida e falta de ética da indústria farmacêutica.

A série original da Hulu mostra os proprietários da OxyContin a expandir o seu negócio para a tornar um “blockbuster drug”, bem como as suas táticas e os seus aliados. Publicitada como um milagre que prometia “curar o mundo da dor”, o analgésico alegava ter muitas virtudes no combate a diversos tipos de dor, com um forte marketing típico dos anos 90, com testemunhos de consumidores a contar que se livraram das dores e recuperaram a sua vida.

Desesperados em aumentar as vendas, observamos os empresários focarem a sua estratégia na mentira dos menos de 1% a gerar dependência do relatório do FDA (Food and Drug Administration) e incentivar os seus vendedores, como Billy Cutler (interpretado por Will Poulter), a convencer os médicos à prescrição do opióide, através de métodos para ganhar a sua confiança, como traçar o perfil de perfil de personalidade completo dos profissionais, oferecer-lhes presentes e repetir vezes sem conta um discurso de vendas pré-feito.

Dopesick demonstra os perigos da droga e como a OxyContin, tal como as drogas ilegais graves, gerou o aumento da criminalidade em zonas que eram pacíficas antes de ter começado a ser receitada.

A trama inclui várias histórias paralelas, como a de Betsy Mallum (interpretada por Kaitlyn Dever), uma jovem que trabalha nas minas, depois de provar à sua família machista que uma mulher o podia fazer. Vive no Kentucky, que tem uma grande parte de população mineira e, portanto, caraterizado pelas vidas difíceis e dores dos trabalhos forçados. Os estados de Kentucky, Virginia, e Main são, por esses motivos, alvos perfeitos dos proprietários da OxyContin para propagar a “cura da dor”.

É uma série obrigatória para compreender como uma substância tão grave para a saúde pública, que provocou mais de 500.000 mortes, foi disseminada com o apoio de uma campanha de marketing selvagem, de organizações que a aprovaram, de médicos que a receitaram e de farmácias que a venderam, à medida que milhões de pessoas foram adquirindo dependência, arruinando as suas vidas, sem que os seus gritos de pedido de ajuda fossem ouvidos.

Artigo da autoria de Bruno de Azevedo