Artigo de Opinião Opinião

O problema da racionalidade ocidental

O crime da racionalidade ocidental é não ser racional. Às vezes é “a-racional”, às vezes é “sub-racional”. Mas não é nunca, pelo menos nunca o é sistematicamente, racional.
Por Gonçalo Costa

Duas coisas se poderiam dizer, a nível de remate inicial, acerca do problema da racionalidade ocidental. Primeiro, que engloba muitos problemas. Segundo, que o principal é ser pouco racional. E, já que estamos em enumerações, é pouco racional por, pelo menos, duas razões. Primeiro, porque é “a-racional”. Segundo, porque é “sub-racional”.

Vivemos no tempo do marketing e da publicidade. Já ninguém acha que as mulheres são iguais em dignidade aos homens porque tem boas razões para achar isso: acham-no porque toda a gente acha. É claro que existem ótimas razões para defender a igualdade de género, só que ninguém as usa! No nosso mundo ocidental, argumentar seria uma via longa e desnecessária; a nós, basta-nos chamar misóginos a quem discorde. E, veja-se, estou a falar de um assunto que, à partida, é mais ou menos consensual: as mulheres têm a mesma dignidade que os homens – a maioria de nós, aliás, sentir-se-ia envergonhado (vergonha alheia) por ter que ensinar semelhante coisa a alguém. O que seria, então, se passássemos a um tema ligeiramente mais quente, como a vacinação contra a covid-19? Não vou entrar em apostas, mas à partida diria que, dos 88,7% de população vacinada (entre os quais me incluo), a vastíssima maioria não o fez por ter encontrado para isso boas razões, mas simplesmente porque existe marketing e publicidade.

Isto é um exemplo do que chamei a-racionalidade: uma demissão do direito e dever de pensar. Talvez possam haver bons argumentos a favor da eutanásia; no entanto, o argumento pela liberdade – “a vida é minha e eu faço dela o que eu bem quiser” – não é, pelo menos na boca de 98% das pessoas que o balbuciam, sequer um argumento: é o papaguear do slogan publicitado em massa. E a prova disso é que só 2% nos saberão dizer prontamente o que entendem por liberdade. O leitor há de reparar que isto é um grande paradoxo: na época em que mais se louva a originalidade, o mundo ocidental está povoado por fotocópias. Aliás, a maioria das pessoas louva a originalidade, porém, excluindo a resposta “porque sim”, não saberia dizer em que é que a originalidade é melhor que a tradição.

O outro problema da racionalidade ocidental é ser sub-racional. Já não estamos no âmbito das irresponsabilidades intelectuais quotidianas, em que damos a nossa asserção a determinadas crenças sem uma adequada justificação racional. Estamos no âmbito das tão esperadas justificações racionais que ficam aquém desse patamar.

Os gregos, para além da dedução e da indução, acreditavam também na intuição. Nós, graças ao monsieur Descartes e ao mister Hume, para não falar do senhor Kant, falamos de dedução e de indução, apesar de só confiamos bem na dedução. Intuição nem vê-la. Não vou dar uma aula de história da Filosofia; o ponto é apenas este: fomos progressivamente identificando o conhecimento com o conhecimento científico. O “cientificismo” é precisamente a opinião, ou preconceito, segundo o qual a forma de conhecimento científico – matematizável, repetível, universalizável – é a única forma válida de conhecimento. Mas aquilo que nos mostra a história e, mais genericamente, as humanidades, é que nem sempre foi assim. A Literatura, as Artes, a Filosofia – só para dar alguns exemplos – foram descartadas. Quando entramos em debates ditos racionais, entramos em debates de custo e benefício, de utilidade prática e imediata. Ora, isso não é racional – isso é sub-racional. Porque, todos sabemos bem, a razão humana não é um computador nem uma máquina de calcular. O intelecto humano é uma faculdade, uma capacidade, um poder que todos temos: não apenas para dizer que “um e um são dois” ou para calcular a pressão de um fluido numa comporta oblíqua, mas também, e principalmente, para procurar conhecer a natureza do belo, da verdade e do bem, para nos perguntarmos o que é a vida e o que é a morte, para nos perguntarmos acerca do sentido da vida e do sentido da morte!

Também um macaco organiza os seus recursos para atingir os fins que pretende: a racionalidade pragmática humana varia da de um macaco, não qualitativamente, mas quantitativamente. Só quando vencermos a sub-racionalidade utilitarista – que tem o seu lugar, mas não é tudo – é que chegaremos à grandeza da racionalidade humana.

Termino com uma distinção já antiga na história da Filosofia. Os medievais distinguiram dois tipos de ações: ações imanentes e ações transitivas. A ideia geral é que todas as ações ‘agem’ sobre algo: as ações imanentes agem sobre o próprio agente, enquanto as transitivas agem sobre algo externo. Um exemplo clássico, se ajudar, é, para a ação imanente, o desejar – é uma ação, mas o seu efeito recai sobre o próprio agente, que é transformado por esse acto –; e, para a acção transitiva, o desenhar – que produz um efeito numa folha de papel, por exemplo.

Ora, o grande crime da dita racionalidade ocidental é que fez do pensar uma ação predominantemente transitiva – pensamos para produzir algo, para dominar a natureza, para transformar o mundo –, quando deveria ser uma ação principalmente imanente – pensamos para nos transformarmos a nós próprios… o mundo vem por acréscimo.

É esse o poder da razão humana. Mas hoje, no Ocidente, a racionalidade, entre a-racionalidade e sub-racionalidade, está pelas vias da amargura.

 

Artigo da autoria de Gonçalo Costa