Artigo de Opinião Opinião

Jogos de Poder

As eleições legislativas estão à porta e, no xadrez político, as peças já se movimentam no tabuleiro. A primeira a cair foi o Almirante Mendes Calado, quase que “empurrado” pelo Governo para fora do cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada.
Por Miguel Garrido

Antes de mais, quero sublinhar que sou um grande apreciador do (agora) Almirante Gouveia e Melo e do seu trabalho enquanto líder da task force do Plano de Vacinação contra a Covid-19. Se há figura pública em especial a quem podemos agradecer pelo facto de os números de óbitos e internados serem hoje 70% a 80% mais baixos do que há precisamente um ano, é ao Almirante – uma figura credível e consensual entre os portugueses, um militar prestigiado que já mostrou ter a competência necessária para desempenhar cargos importantes.

Tirando isso do caminho, penso que esta espécie de “jogo de poder” que o Governo orquestrou em torno do cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) foi, no mínimo, infeliz – uma manobra política desnecessária, que descredibiliza (uma vez mais) as instituições militares portuguesas, sendo a Armada Portuguesa a sua vítima.

Se já em outubro o Governo de António Costa tentara exonerar o Almirante Mendes Calado – proposta que foi travada por Marcelo Rebelo de Sousa e que até originou uma “reunião de emergência” em Belém entre o Presidente, o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa –, desta vez o Presidente da República decidiu ter “chegado o tempo” de substituir o CEMA, dando o seu aval à proposta do Governo.  No entanto, continua sem se perceber muito bem o porquê de “ter chegado a hora” de Mendes Calado. A verdade é que não terá sido incompetência, muito menos algum erro, que o retirou do cargo; caso contrário, o Presidente não o iria condecorar com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Pior: pela primeira vez, um CEMA foi nomeado sem que o Almirantado se pronunciasse sobre a sua nomeação.

Por um lado, o Governo exonera injustificadamente o CEMA, seguindo-se uma condecoração anunciada pelo Presidente da República, que não deixa de parecer mais uma espécie de “prémio de consolação” do que algo atribuído como reconhecimento (definitivamente merecido) pela carreira militar brilhante do Almirante Mendes Calado. Por outro lado, trata novamente as Forças Armadas como se de um Ministério ou departamento governamental se tratassem, comprometendo mais uma vez a independência destas estruturas em relação ao poder político.

O que poderá, então, ter precipitado esta espécie de “atropelamento” político-institucional? A resposta é simples: “eleições”. Falta um mês para as legislativas e o Governo, com esta manobra, dá a entender que quis aproveitar a grande popularidade que Gouveia e Melo goza junto da população portuguesa para ganhar algum “crédito político” – uma decisão, no mínimo, questionável e censurável.

Será que o PS terá realmente conquistado votos nas urnas com esta manobra? Pouco provável. A questão mais pertinente será perguntarmo-nos se esta jogada dos socialistas não terá sido um autêntico “tiro no pé” a médio-longo prazo. Suponho que tudo dependerá das aspirações políticas do Almirante Gouveia e Melo.

Nas palavras do novo CEMA: “O futuro só a Deus pertence”.

Artigo da autoria de Miguel Garrido