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Rio pediu o divórcio

Francisco Rodrigues dos Santos é o contrário do líder do PSD. Não tem ideias fortes, não tem uma postura clara e não diz para onde vai porque nem ele próprio sabe.
Por João Paulo Amorim.

Agora que o líder do PSD já deixou mais pistas em relação à sua estratégia, depois do Congresso do PSD, é possível responder ainda melhor à seguinte pergunta: porque é que Rui Rio decidiu avançar para as eleições legislativas de 2022 sem uma coligação com o CDS? Principalmente por três razões.

A primeira é simples e óbvia. Francisco Rodrigues dos Santos, o “Chicão” que rapidamente se transformou em “Chiquinho”, transformou também o partido que (não) lidera numa selvajaria, uma autêntica associação de estudantes dominada por guerras, acusações e gritaria desmedida. Rio teve medo de, aproximando-se do CDS (ou melhor, desta versão do CDS), pisar uma mina que desfizesse todo o seu trabalho.

Rodrigues dos Santos é antagónico ao líder do PSD. Não tem ideias fortes, não tem uma postura clara e não diz para onde vai porque nem ele próprio sabe. Não tem estratégia e, tendo em conta a situação atual do partido, devia ter sondado o PSD. Precavendo-se, tinha dado um sinalzinho de alguma inteligência e pragmatismo. O PSD atravessou, tal como o CDS, um período de eleições internas. Mas não deixou que esse período tornasse o partido desorganizado e afastado dos princípios democráticos. Coligando-se, o PSD perderia parte da sua credibilidade e solidez.

A segunda razão é baseada numa previsão praticamente certa que, apesar de ainda não se ter confirmado, já se tornou consensual, até dentro de uma parte do CDS. A previsão de que o partido está a definhar e vai continuar a definhar, revelando-se como um aliado vazio, que em nada contribuiria além de fazer figura de corpo presente. É um mero peão no xadrez político nacional. Em 2022, a Iniciativa Liberal vai crescer, o Chega vai crescer e o CDS vai ser desfeito em migalhas insignificantes. Não é apenas Rodrigues dos Santos o responsável pela crise no CDS, mas a sua postura certamente não contribuiu para evitar a machadada final.

A terceira razão já tem sido adiantada pelo próprio Rui Rio. O PSD de hoje e de Rio está mais próximo do centro do que da direita. E disputar o centro implica um combate com António Costa. Uma aproximação à direita e ao CDS só significaria mais um obstáculo e uma postura, em certa medida, incoerente.

Depois do chumbo do Orçamento do Estado, uma nova colagem entre os partidos de esquerda será imperdoável no ponto de vista dos eleitores, mas a maioria absoluta do PS parece cada vez menos um cenário imaginável. Rio, ao dizer que deixa o PS governar perdendo as eleições, encurrala António Costa e livra-se das acusações de quem o prendia ao Chega (apesar de se livrar, não acho que seja um cenário fechado).

Já o líder do CDS afirmou não ter medo de Nuno Melo, mas imagino que adormeça todos os dias horrorizado com o desfecho de 30 de janeiro. Partindo sem coligação para as legislativas, todos vão descobrir quanto pesa sozinho o CDS. A derrota já não será invisível. Não vai ser bonito.

Artigo da autoria de João Paulo Amorim