Crítica Opinião

Glória: uma estreia que não desilude, mas também não deslumbra

Se o objetivo era produzir um conteúdo de portugueses para portugueses, esse foi alcançado com distinção; se era, por outro lado, fazer com que o mundo se começasse a interessar por histórias do país de Camões, lamento informar, mas não é com “Glória” que lá vamos.
Por Inês Araújo Silva

Enquanto espectadores assíduos de filmes e séries internacionais, os portugueses, principalmente os mais jovens, estão acostumados a ver a História e as histórias de outros países, outras culturas, outros povos, representados nos grandes palcos internacionais. O que significará, portanto, para as novas gerações verem um pedaço da História de Portugal, e histórias profundamente portuguesas, numa plataforma como a Netflix? Uma questão que, tal como as várias que surgem no último episódio desta primeira temporada, para já, fica sem resposta.

Para além do enredo principal e da vertente de thriller de espionagem, “Glória” retrata o Portugal dos anos 60, abordando desde a ditadura, à guerra colonial e aos direitos das mulheres. A subtileza e o bom gosto do argumento marcam o tom da narrativa que nunca descamba para um lugar comum, fastidioso e vazio.

A complexidade das personagens, especialmente das femininas, é refrescante. Destaque para Carolina, a “menina” do campo, cuja humildade e inocência não apagam a ambição inata, e cujos sonhos não fazem diminuir a sensatez.

A realização competente de Tiago Guedes vem trazer uma sensação de alívio: afinal Portugal consegue competir com outros países na criação de conteúdos de qualidade. Um país habituado a fazer muito com pouco, agora prova que cá, com muito e bem, também há quem. 

A estreia de Portugal na Netflix não desapontou. Verdade seja dita, também não deslumbrou. Denota-se uma série ainda com sintomas da obsoleta tentativa (luso-falhada) de um cinema erudito europeu, que impõe a retirada de todo e qualquer elemento mais carismático de personagens que se querem tão estóicas quanto possível – não vá um espectador conseguir, de facto, empatizar com alguma delas. Ao se querer fugir a sete pés do formato-tipo americanizado, são precisos sete episódios – ao invés de sete minutos – para que se crie uma ligação com a história e os protagonistas. 

A escolha de renunciar à fórmula hollywoodesca pode ter implicações no sucesso da série. Se o objetivo era produzir um conteúdo para a Netflix, com um maior orçamento e de portugueses para portugueses, esse foi alcançado com distinção; se era, por outro lado, fazer com que o mundo se comece a interessar por histórias do país de Camões, lamento informar, mas não é com “Glória” que lá vamos. Uma tomada de posição que, a se verificar, não deixa de ser anedótica, e bem à moda portuguesa: a pecar por “pequenina” e com resquícios de hipocrisia.

Artigo da autoria de Inês Araújo Silva