Artigo de Opinião Opinião

A essência que nos é devida

A educação é um direito, mas também uma responsabilidade nossa. Mas a realidade é que estamos muito longe de uma educação decente no nosso mundo e mais longe ainda de um mundo verdadeiramente digno.
Por Afonso Morango

Ao observar sem particular atenção todos os nossos empreendimentos passados, apercebo-me facilmente das inúmeras evidências extraordinárias da criatividade humana. Por outro lado, pode ser assustador o facto de não fazermos a menor ideia do que vai acontecer em termos do nosso futuro. Ninguém sabe, apesar de toda a perícia que tem sido evidenciada nos últimos anos, como será o mundo dentro de uma década. E, no entanto, estamos destinados a educar as pessoas para isso. É, pois, por essa razão, que todos nós deveríamos ter um grande interesse na educação, já que será ela a responsável por nos levar rumo a este futuro que não podemos ainda compreender.

A imprevisibilidade é fascinante e creio que todos estamos de acordo, ainda assim, em relação às capacidades genuinamente extraordinárias que as crianças têm, especialmente a sua capacidade de inovação. A minha veemente convicção é que todas as crianças têm imensos talentos, mas nós esmagamo-los impiedosamente. É arrebatador a forma como arriscam sempre e, mesmo quando não sabem, tentam. Elas não têm medo de errar.

Não estou a dizer que estar errado é a mesma coisa que ser criativo, mas se não estivermos preparados para o erro, nunca chegaremos a algo verdadeiramente original. A criatividade é tão importante na educação quanto a literacia e deveríamos tratá-la com o mesmo estatuto.

Quando chega a sua vez de serem adultos, a maioria das crianças já perdeu a capacidade de inovar. Algures pelo caminho adquiriram o receio de falhar, numa sociedade em que os erros são frequentemente estigmatizados. Gerimos agora um sistema de educação nacional onde os erros são a pior coisa que uma criança pode fazer e a realidade é que estamos a educar as pessoas para fora das suas capacidades criativas. Todas as crianças nascem curiosas. O problema está em permanecê-lo enquanto crescem.

Todos os sistemas de ensino do planeta têm a mesma hierarquia de disciplinas: no topo estão a matemática, a ciência e as línguas, seguidas pelas humanidades. Em último estão as artes. Não é possível encontrar um único sistema educativo no planeta que ensine dança às crianças todos os dias da mesma forma que ensina matemática. Porque não? A matemática é verdadeiramente importante, mas a dança também o é. As crianças estão sempre a dançar, se lhes for permitido. Todos nós o fazemos. Todavia, ao perpetuarmos esta visão da educação, impugnando o poder de escolha, a verdade é que negamos parte da nossa essência enquanto seres humanos.

Na verdade, o que acontece é que, à medida que as crianças crescem, começamos a educá-las progressivamente da cintura para cima, concentrando-nos depois nas suas cabeças. Todo o nosso sistema educativo baseia-se na ideia de habilidade académica e é fácil perceber o porquê. Em todo o mundo, não existiam realmente sistemas públicos de educação antes do século XIX. Todos eles foram criados para responder às necessidades do industrialismo e a hierarquia enraizou-se em duas ideias fundamentais.

Por um lado, as disciplinas que se versam as competências mais valorizadas no mercado de trabalho estão no topo. Muitas pessoas foram provavelmente afastadas benignamente de certas áreas ou atividades extracurriculares quando eram crianças, sob o argumento de que nunca conseguiriam um emprego a fazer aquilo. Um conselho benigno, mas profundamente equivocado.

Por outro lado, a capacidade académica domina a nossa própria visão de inteligência e as universidades concebem hoje os sistemas à sua imagem. Na realidade, todo o sistema de educação pública é apenas um moroso processo de entrada na universidade. Como consequência, inúmeras pessoas altamente talentosas, brilhantes e criativas pensam que simplesmente não são suficientemente inteligentes. Aquilo em que eram genuinamente boas não era valorizado ou chegava mesmo a ser estigmatizado.

Não nos podemos dar ao luxo de ir por este caminho. De repente, os cursos já não valem tanto como antigamente. Há uns anos, se alguém tivesse um diploma de licenciatura, um emprego seria quase sempre garantido. Se não tinham um emprego, era porque não o queriam. É verdade que o processo de Bolonha influenciou a forma como olhamos para as licenciaturas, contudo, a realidade é que estamos a atravessar um período de inflação académica e este fenómeno parece indicar que toda a estrutura da educação está a mudar mesmo por baixo dos nossos pés.

Precisamos de repensar radicalmente a nossa visão da inteligência, pois ela é diversa. Pensamos o mundo através de todas as formas pelas quais o experimentamos. Mas a inteligência também é dinâmica e maravilhosamente interativa. A própria criatividade nasce da interação entre as diferentes formas disciplinares de ver as coisas. E, além de diversa e dinâmica, a inteligência revela-se profundamente distinta. Os seres humanos são excecionalmente dissemelhantes entre si e algumas pessoas têm de se mover para pensar. A dança, o teatro e todas as outras formas de expressão de arte revelam argúcia e uma capacidade de compreensão do mundo que nos rodeia deveras especial.

A nossa única esperança para o futuro passa pela adoção de uma nova conceção de ecologia humana, uma conceção na qual comecemos a reconstituir a nossa crença na riqueza da nossa capacidade enquanto espécie. Deveríamos estar a celebrar o dom da imaginação humana e, acima de tudo, usar esta extraordinária habilidade com sensatez.

As crianças devem ser vistas pela esperança que representam e, ainda que não estejamos cá para ver o futuro, elas estarão. O nosso trabalho é ajudá-las a tirarem o máximo partido dele. Mas, para que os tempos vindouros sejam, de facto, sublimes, não nos devemos conformar com o mundo. É fundamental questionar e, mais importante ainda, permitir que os mais novos o façam.

A raça humana está cheia de paixão. Tal como o professor John Keating (personagem interpretada por Robin Williams no filme de culto “O Clube dos Poetas Mortos”) disse, medicina, direito, economia e engenharia são atividades nobres e absolutamente indispensáveis para manter o ritmo acelerado das nossas vidas no século XXI. Contudo, poesia, beleza, arte, romance e amor são aquilo por que nos mantemos vivos.

Artigo da autoria de Afonso Morango