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As duas coisas que Greta não quer perceber

As alterações climáticas são o maior desafio que a humanidade enfrenta atualmente e notar esse consenso a formar-se é tranquilizador. Contudo, tal não pode ser via para as novas gerações acharem que um problema complicadíssimo é solucionável de forma simplista.
Por João Paulo Amorim.

Antes de mais, quero agradecer-lhe, caro leitor, por cair na provocação e deixar-se ser atraído, quase de forma magnética, para ler este texto. Se, ao ler o título, pensa estar perante mais uma oportunidade de enxovalhamento e discussão acéfala de redes sociais, está no sítio errado. Essas atitudes não são aconselháveis. O raciocínio não pode ser por imitação, deve ser pessoal e ponderado. Uma posição comum inquestionável é passível de se tornar dogmática e, assim, perigosa. Mas é isso que começa a acontecer no debate das mudanças do clima.

As alterações climáticas são o maior desafio que a humanidade enfrenta atualmente e notar esse consenso a formar-se é tranquilizador. Contudo, tal não pode ser via para as novas gerações, as gerações do imediatismo, da precipitação e da gritaria, dos lunáticos de 2021, acharem que um problema complicadíssimo é solucionável de forma simples. Não. A isso chama-se ser simplista. Greta, o ídolo desta geração, um ícone que deve ser louvado, não é perfeita. E no debate que alimenta – que, por mais mobilizador que seja, se começa a tornar repetitivo e inócuo – há lacunas e omissões. Aponto agora duas delas.

Primeiro de tudo, há um aspeto que se costuma esquecer. Apesar de as viagens interplanetárias se terem agora tornado no fetiche dos mais absurdamente bilionários, já muitos mundos foram explorados e são até habitados por humanos. O nosso planeta integra vários. A divisão geográfica de continentes e países deixou de fazer sentido quando as diferenças de qualidade de vida criaram um fosso tão gritante e até humilhante para a humanidade. O nosso mundo divide-se em muitos mundos radicalmente diferentes.

Há milhões de pessoas em países em desenvolvimento (isto é, países pobres) que ainda não vivem como se vive em Portugal e no resto do Ocidente, mas que sonham e ambicionam alcançar esse patamar. O ambiente só é uma preocupação para os países desenvolvidos (isto é, ricos) porque já ultrapassaram as várias etapas. As etapas do andar descalço na rua, do hábito inexistente da higiene, da subnutrição e das epidemias. É possível, e até sensato, convencer estas pessoas que não podem andar de avião, andar de carro ou comer um bife, ou seja, que não podem usufruir dos mesmos luxos nem cair nas mesmas tentações em que os países desenvolvidos caem sucessivamente há décadas e décadas? A consciência ambiental não está no foco da cultura oriental porque o dia-a-dia de muitas dessas pessoas baseia-se em responder a necessidades básicas do ser humano, às coisas mais elementares que no Ocidente já se tornaram automáticas e são encaradas como garantidas (e, portanto, esquecidas).

Quando num lado do mundo se morre de subnutrição, no outro morre-se de obesidade. Quando cai uma vítima da guerra num lado do mundo, cai uma vítima de suicídio de uma ponte no outro lado do planeta. Quando a chuva é a razão da tristeza num lado do mundo, no outro lado há quem derrame lágrimas de felicidade sempre que bebe água potável. Daqui a muitas centenas de anos, numa sociedade utópica que teve a sorte de não ver a raça humana extinta por causa das alterações climáticas, esta história sobre o século XXI vai ser contada aos mais novos. Ninguém vai acreditar.

O segundo ponto é o seguinte. Por mais que o nível médio das águas do mar suba, por mais que o ar se torne irrespirável, por mais que a terra perca a sua fertilidade, um facto é irrefutável: os combustíveis fósseis foram fulcrais para o desenvolvimento e para a criação das condições atuais de vida.

A índia, no fecho da última cimeira ambiental, a COP26, conseguiu uma reviravolta a seu favor. Provocou uma alteração de última hora no documento final que, em vez de dizer que existe um compromisso comum para eliminar progressivamente o carvão, afirma que os países prometem ir reduzindo progressivamente esta forma de energia. Diversos países expressaram lamentos, os jornalistas questionaram agressivos, o público reagiu furiosamente.

Mas será que se pode (ou deve) mesmo culpar a Índia quando este país e a China, que aprovou a alteração, são os dois países do mundo mais dependentes do carvão, essencial para o desenvolvimento urbano, para a universalização da rede de energia elétrica ou para o crescimento da indústria? Pode ser mais cada vez mais caro em relação aos concorrentes de energia limpa, mas o carvão é ainda o meio mais fácil para fazer com que a população destes países tenha acesso a energia. População essa que não são 10 milhões. Não vou falar sequer da média per capita referente a dados sobre poluição. O número de habitantes da índia ou da China é tão longo e com tantos zeros que se torna difícil de ler, tornando-se mais simples apresentar o seguinte dado: juntos, representam mais de um terço da população mundial. A transição energética nunca poderia ser feita da noite para o dia.

A civilização, e especialmente o progresso dos países em desenvolvimento, não pode retroceder em nome das alterações climáticas, enquanto o Ocidente toma as decisões confortavelmente, ao abrigo de paredes e aquecedores. Nem tem que ser essa a forma de travar as alterações climáticas. O maior desafio da humanidade não vai ser solucionado pelo histerismo. Vai ser resolvido pela tecnologia e pela economia. Tem que existir um shift social que vá além de política ou leis. Tem que acontecer uma completa transformação da forma como vivemos.

Fica a dúvida se a COP26 será o primeiro grande passo da mudança ou se vai tornar-se em mais um “Acordo de Paris”. E se os países desenvolvidos finalmente baixam a máscara e assumem a sua hipocrisia tremenda.

Artigo da autoria de João Paulo Amorim