Artigo de Opinião Opinião

Uma solução temida mas necessária

Até agora, tem sido relativamente fácil para a maioria dos governos europeus aderirem às metas verdes. A longo prazo, ambiciona-se a substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis. Contudo, a energia nuclear surge como intermediária essencial nesta transição verde.
Por Afonso Morango

A palavra “nuclear” raramente traz boas recordações e são imediatas as reações de medo. Desastres ainda bem presentes na memória alimentam o receio generalizado, mas a verdade é que cada vez mais vozes da ciência advogam o uso da energia nuclear como ferramenta fundamental na luta contra as alterações climáticas.

Por muito abstruso que possa parecer, a realidade mostra-nos que a energia nuclear salva vidas. Segundo um estudo de 2013 conduzido pela NASA, a energia nuclear preveniu aproximadamente 1.8 milhões de mortes desde 1971. Mesmo que incluamos o número de mortos de Chernobyl e Fukushima, a energia nuclear é a última em número de óbitos por unidade de energia produzida. Uma situação similar à taxa de morte de voo versus condução.

E, embora os resíduos nucleares sejam realmente tóxicos, são normalmente armazenados algures, enquanto os combustíveis fósseis são bombeados para o ar que respiramos todos os dias. Apenas ao reduzir a quantidade de combustíveis fósseis queimados foram evitados inúmeros casos de cancro, doenças pulmonares ou acidentes em minas de carvão.

Ainda assim, a energia nuclear parece muito mais perigosa aos olhos da população. Eventos únicos e catastróficos ardem nas nossas memórias, enquanto o carvão e o petróleo matam silenciosamente. Mas a verdade é que, enquanto continuarmos a utilizar combustíveis fósseis, a energia nuclear poupará muito mais vidas do que aquelas que destrói.

Neste momento, ainda dependemos em larga escala do carvão, petróleo e gás natural para sustentar o funcionamento acelerado da nossa civilização e a transição para longe destes combustíveis fósseis é muito complicada. Para termos uma hipótese de afastamento sem comprometer os ambiciosos e modernos empreendimentos humanos, um dos cursos de ação mais impactantes que podemos escolher é eletrificar o maior número possível de setores. É aqui que surgem as fontes de energia renováveis como a solar e eólica. Mas, ainda que as energias renováveis sejam indubitavelmente o futuro da eletricidade e da energia, ainda enfrentam alguns desafios antes de se apoderarem em larga escala da rede elétrica.

Mesmo no cenário mais otimista, levar-nos-ia pelo menos quarenta anos para levar a cabo uma conversão total a energias renováveis e, como nos mostrou recentemente Xi-Jinping ao decidir reabrir minas de carvão em território chinês, confiar no melhor cenário não é um luxo em que possamos confiar.

O principal problema é a fiabilidade e consistência. Nem sempre Éolo e Apolo estão do nosso lado e as variações cada vez mais irregulares entre estações não facilitam a situação. Para tornar o renovável fiável, precisamos de capacidades de armazenamento massivas onde possamos guardar a energia recolhida quando o sol ou o vento estão no seu auge e libertá-la mais tarde quando realmente precisamos.  Eventualmente, seremos capazes de o fazer, mas, neste momento, não possuímos as capacidades para substituir os combustíveis fósseis e realizar a transição verde suficientemente rápido. Até que isto seja possível, outras fontes de energia necessitam de fornecer uma matriz que crie a fiabilidade de abastecimento. A energia nuclear dá-nos essa certeza. E, embora existam outras formas inovadoras de mitigar a inconsistência das energias renováveis, geralmente relacionadas com a gestão do lado da procura, a sua eficácia a nível nacional e internacional ainda não está demonstrada.

Por outro lado, ao olharmos para a crise energética na Europa, reparamos que essa mesma crise foi, em parte, potenciada por estas fontes preeminentes de energia renovável que não funcionam em plena capacidade. Nos casos do Reino Unido e da Alemanha, a energia proveniente do vento diminuiu drasticamente ao longo dos últimos dois anos.

Até agora, tem sido relativamente fácil para a maioria dos governos europeus aderirem às metas verdes. Investe-se e coloca-se mais tecnologia solar e eólica na rede energética e usa-se o gás natural como a fonte de energia base fiável. Contudo, no futuro, a situação irá complicar-se ainda mais quando for necessário substituir o gás natural com uma outra fonte renovável. Enquanto o mundo se desmama dos combustíveis fósseis, a volatilidade dos preços só se tornará mais comum, como tem sido evidenciado pela subida exorbitante da conta dos combustíveis um pouco por todo o mundo, em especial na União Europeia.

A energia nuclear surge, então, como intermediária nesta transição verde, uma vez que resolve a questão da base de energia fiável sem contribuir para o agravamento das alterações climáticas. Como o caso europeu nos tem mostrado, enquanto o Velho Continente ficou sem energia, os estados-membro começaram a contar desesperadamente com Emmanuel Macron, sendo que as exportações francesas de eletricidade para os seus vizinhos europeus têm sido cada vez mais avultadas. Enquanto parte integrante do mercado energético europeu, é a França que mantém os preços baixos e as luzes dos seus propínquos acesas. Curiosamente, a razão pela qual o Hexágono tem tantos reatores nucleares é porque, em resposta à crise petrolífera de 1973, o país apostou fortemente em energia nuclear através do plano Messmer e, atualmente, a França tem dos preços de eletricidade mais baixos da Europa. Neste momento, apenas cerca de 10% da energia francesa provém de combustíveis fósseis, sendo que 67% é nuclear. Na Suécia, cerca de 30% da energia também tem origem nuclear. É um facto que esta fonte de energia funciona em larga escala.

Devido à falta de investimento e inovação nas últimas décadas, a maioria dos reatores nucleares do mundo baseiam-se em tecnologia bastante antiga e muito dispendiosa de substituir. Na maioria dos países ocidentais, a construção de reatores nucleares tornou-se muito cara por uma variedade de razões, como a perda de conhecimento prático relativamente à sua construção. As mudanças políticas e o aumento das restrições regulamentares levam a que seja necessário quase uma década apenas para terminar uma central nuclear.

Por outro lado, países como a Coreia do Sul, a China, Índia e Rússia são capazes de construir novos reatores nucleares de forma relativamente rápida e a um custo competitivo. Atualmente, temos projetos para reatores nucleares que resolvem muitos dos problemas associados a preocupações nucleares, nomeadamente reatores mais pequenos que levam menos tempo a montar e que requerem um menor investimento e a própria França já anunciou planos para o desenvolvimento de um mini reator modular comercialmente viável. Existem também tecnologias de próxima geração que já podem transformar os resíduos radioativos em novos combustíveis gerando mais eletricidade com baixo teor de carbono. Contudo, estas medidas ainda não foram implantadas em grande escala na Europa de forma a ter um impacto significativo no sector nuclear.

Alguns argumentam que a energia nuclear é uma relíquia perigosa do passado e que devemos concentrar-nos apenas nas energias renováveis. Mas, como a mais recente crise energética europeia nos revelou, é impossível alcançar as ambiciosas metas verdes recorrendo unicamente a energias renováveis como o vento ou o sol sem, todavia, comprometer todo o fornecimento de energia necessário ao ritmo do século XXI. Este tipo de energias verdes ainda não é suficiente e, em resposta à situação de volatilidade energética europeia, vários países como a França, a Finlândia, a Polónia, a Hungria, a Itália e a República Checa advogam o uso desta fonte de energia e já começaram a exercer pressão sobre a União Europeia para categorizá-la como sustentável.

Os combustíveis fósseis não poderão fazer parte do nosso futuro e, apesar de alguns problemas, a aposta na energia nuclear como ponte para um futuro de energias renováveis parece ser a escolha mais acertada.

Artigo da autoria de Afonso Morango