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Novo normal: Crianças, vacinem-se

Reflexões acerca da vida pós pandemia, carinhosamente apelidada pelos jornalistas de "novo normal".
Por Débora Magalhães Binatti

Existe vida pós-pandemia?

Hoje acordo às 7:30 da manhã, lavo meu rosto e passo o café. Tomo meu antidepressivo. A dose está maior do que no mês passado. Olho para a casa, suja, sujíssima, poeira se acumula nos cantos. O gato do meu colega de quarto brinca com os novelos de lã para crochê da outra menina que está morando connosco. Como uma maçã, escovo os dentes. Telefone, auriculares, carteira, álcool gel, máscara e chave. Vou para a faculdade.

Algumas horas de aula. Divago, minha atenção já não é a mesma. Lembro da inflação no Brasil. Lembro do governo Bolsonaro. Lembro dos 600 mil mortos. Lembro do meu falecido avô. Anoto a definição de interação simbólica. Olho as redes sociais. Aula acaba. Levanto-me para um café. Encho minha garrafa de água. Sinto minha coluna estalar – sedentarismo. Volto.

Da faculdade vou para o trabalho. Bato cartão, mais um café, terceiro do dia, coloco os auriculares, assistência daquela multinacional que todo mundo conhece, bom dia, como posso a ajudar? Máscara não é obrigatória no escritório. Comprovativo de vacinação também. Mais um café, desinfeto as mãos com álcool gel, vou no banheiro, respiro, volto à escrivaninha, sento-me, respondo a emails, mais uma reunião, peço desculpas.

Volto para casa. Tenho de varrer ou aspirar a sala, a casa está imunda. Tiro lixo, sinto fome. Cozinho, tento uma dieta vegetariana, ovo conta? Limpo a cozinha, janto, leio os textos da faculdade. Meus trabalhos estão atrasados. Preciso limpar a casa. Continuo lendo meus textos da faculdade. Respondo emails. Deveria arrumar a casa.

Hora de dormir. Banho, escovar os dentes, cama. Tomo rivotril. E um antipsicótico. E outro ansiolítico. O SOS que o psiquiatra recomendou também, não pode faltar. Não sei se eu deveria ligar para o hospital ou para o Centro de Valorização à Vida. Quem sabe desistir; saltar da ponte mais perto para o outro mundo. Paro de pensar, é só rotina – rotina do novo normal. Talvez eu devesse realmente considerar saltar da Arrábida.

Acordo, de novo, às 7:30 da manhã, lavo meu rosto, passo o café.

É essa a vida pós-pandemia?

Artigo da autoria de Débora Magalhães Binatti