Crítica Opinião

Blue Banisters: o regresso mais puro de Lana Del Rey

"Blue Banisters" revela os blues da infância de Lana Del Rey, num universo de músicas que fogem um pouco do seu comum, mas que não perdem a pureza e o sentimentalismo já tão conhecidos - talvez até mais presentes.

Por Inês Lopes

There’s something in the air
The girls are running ‘round in summer dresses
With their masks off, and it makes me so happy 

(Violets for Roses, Blue Banisters – Lana Del Rey)

Não é de estranhar a estética evocativa de Lana Del Rey que remonta aos anos 60 e 70, envolta num glamour totalmente americano e poético. Entre cenários de heartbreak e feminilidade que encontram muitas vezes a natureza da sua terra natal, a cantora não perde a essência no seu oitavo e mais recente álbum – lançado a 22 de outubro -, mas há aspetos que diferenciam Blue Banisters das suas outras produções. Destacam-se, desde logo, as menções mais diretas ou indiretas à pandemia, como a referência à ausência das máscaras e às portas abertas das livrarias nos primeiros versos de “Violets for Roses”, coisas antes normais e que agora provocam uma nova euforia. Ou, em “Black Bathing Suit”, a menção à quarentena e ao Zoom, ou os versos “and if this is the end, I want a boyfriend / someone to eat ice cream with, and watch television”, numa música que se direciona para assuntos como o ganho de peso em confinamento, quando as quatro paredes de uma casa eram tudo o que conhecíamos, enquanto o mundo colapsava lá fora.

“Wildflower Wildfire” deverá ser a música do novo álbum mais próxima de tudo o que representa o estilo sui generis de Lana Del Rey. O começo com os acordes simples de piano vai-se desenrolando em versos que contam uma história, acabando com um final mais ruidoso a nível instrumental, assemelhando-se a muitas músicas da cantora (como “Chemtrails Over the Country Club”). “Living Legend” não foge a este evoluir musical, sendo a necessária e sempre presente confissão romântica nos álbuns da cantora.

Blue Banisters revela os blues da infância de Lana Del Rey, num universo de músicas que fogem um pouco do seu comum, mas que não perdem a pureza e o sentimentalismo já tão conhecidos – talvez até mais presentes. Este poderá ser o álbum mais autobiográfico da cantora, que documenta um romance fracassado e o início de outro, bem como o relacionamento próximo com a sua irmã e o relacionamento difícil com a mãe. Como todas as outras criações de Lana, o novo álbum não foge à tradicional mistura de assuntos do coração com a ironia frequente que tornam as suas palavras mais difíceis (ou fáceis) de interpretar. Ouvir Blue Banisters parece familiar e, ao mesmo tempo, não. Desperta novas reações e é, sem dúvida, uma adição importante à tradição de Lana Del Rey.

A máxima de La Bruyère diz que o amor vem todo de uma vez. Mas o amor cresce, mais e mais a cada dia. Blue Banisters é o resultado de uma vida que comprova isso e que, muitas vezes, mostra que o amor é uma matéria excelente para a poesia, mas um péssimo sustento para a vida. Mesmo assim, no que com ele acaba, com tudo o que há de prosaico e mundano, nascem novos instantes capazes de perdurar – Lana Del Rey também nos ensina isso.

 

Artigo da autoria de Inês Lopes