Artigo de Opinião Opinião

O bom jornalismo nunca foi o objetivo de Miguel Sousa Tavares

A escolha desta figura demonstra o desprezo da TVI pelo jornalismo. A luta do canal não é por uma sociedade justa nem por um escrutínio competente do Governo. É mais simples do que isso. É uma guerra de audiências.
Por João Paulo Amorim.

O tema é a capa da semana da revista Visão. É um dos assuntos mais comentados no Twitter. Significa, para muitos, um respirar de alívio. É, para o jornalismo, um passo em frente.

Miguel Sousa Tavares anunciou esta semana que não irá fazer mais entrevistas.

Os momentos sucessivos de falhas e amadorismo foram caricatos ao ponto de provocarem vergonha alheia. A mim, davam a sensação de querer saltar para o ecrã para ser eu a fazer as perguntas, as perguntas certas, as perguntas que espoletam as respostas que são necessárias. Não as perguntas completamente parciais, que revelam mais a opinião do entrevistador do que do entrevistado, desvirtuando o conceito de entrevista e falhando redondamente o objetivo.

O caso não é “mínimo”. Estamos a falar de entrevistas às mais altas figuras do Estado num dos canais com mais audiência em Portugal, em pleno horário nobre. À hora em que as entrevistas vão para o ar, em direto, milhões de portugueses estão ou com os olhos espetados na televisão ou, no mínimo, com um ouvido à escuta.

Miguel Sousa Tavares criou polémicas com Ricardo Araújo Pereira, PAN, Joacine Katar Moreira, Rita Pereira. Desde perguntar “tem algum amigo preto?” a André Ventura a estabelecer como salário base de um jovem português a otimista quantia de 2700€, em frente a António Costa. Poderia enumerar os casos todos, mas não tenho espaço suficiente nesta coluna de opinião.

A TVI pecou por atraso na decisão do afastamento de Miguel Sousa Tavares. Porém, na perspetiva do canal, esta demora não foi o principal erro. A maior falha foi a contratação de Sousa Tavares, que saltou do banco de comentador -onde preferia seduzir a polémica a congregar a razão- para o lugar de entrevistador, sem nunca alterar o seu estilo.

A escolha desta figura demonstra o desprezo da TVI pelo jornalismo. A luta do canal não é por uma sociedade justa nem por um escrutínio competente do Governo. É mais simples do que isso. É uma guerra de audiências. A escolha do canal é fiel à sua identidade. Os números suplantam a destreza jornalística. O debate é preterido ao infotainment.

Esta crítica não é uma tentativa de diabolização nem sequer “cancelamento” de Miguel Sousa Tavares. Apesar das lacunas enumeradas, o seu trabalho anterior no mundo do jornalismo e da literatura tornou-o numa das personalidades mais marcantes da cultura portuguesa atual. Não o podemos acusar de falta de personalidade. Este artigo é uma chamada de atenção para a sua carreira recente e para a política editorial e de recrutamento seguida pela TVI.

No futebol, um dado relevante e mais realista para medir a qualidade de um campeonato é o tempo de jogo. Ou seja, contabiliza-se, ao invés do tempo total de jogo, o período de tempo em que a bola está em circulação e o jogo está efetivamente em ação. Não é novidade afirmar que o tempo útil no campeonato português é inferior ao dos campeonatos europeus de topo. Um conceito que é possível transpor para as entrevistas de Miguel Sousa Tavares. O tempo útil das entrevistas foi sempre inferior ao das entrevistas de qualidade e dignidade. Sousa Tavares sempre preferiu sufocar os entrevistados com perguntas, demonstrando desrespeito pelo entrevistado e, em muitos casos, pelos eleitores portugueses. Sempre preferiu apostar nos monólogos incessantes e sempre teve gosto em “arrasar”, não criticar. A sua vontade era transformar as entrevistas em debates.

Com a sua saída, Miguel Sousa Tavares abandona, pela porta pequena, o terreno onde, a agir desta forma, não devia ter entrado.

 

Artigo da autoria de João Paulo Amorim