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«Pôr do sol» ou a sátira de novo no ecrã português

Se há coisa de que estamos cheios até ao tutano é de programação de má qualidade na televisão portuguesa. Desde programas da tarde que não acrescentam nem retiram à nossa existência, passando aos reality shows do escândalo perpétuo, bem como, claro, as tão conhecidas novelas, que nos dão clichés desde que são novelas. «Pôr do sol» vem expor este tipo de escrita, através de um registo, que às vezes é apenas humorístico, e noutras é altamente satírico.

Já pouca ou nenhuma televisão nacional vejo. Se há coisa de que estamos cheios até ao tutano é de programação de má qualidade na televisão portuguesa. Desde programas da tarde que não acrescentam nem retiram à nossa existência, passando aos reality shows do escândalo perpétuo, – e já nem falo das bem-retiradas-do-espaço-televisivo-português, as touradas (que para sempre desapareçam, aleluia) – bem como, claro, as tão conhecidas novelas, que nos dão clichés desde que são novelas. «Pôr do sol» vem expor este tipo de escrita, através de um registo, que às vezes é apenas humorístico, e noutras é altamente satírico.

Com argumento de Henrique Dias, «Pôr do sol» tanto brinca com a forma de se fazer arte, em Portugal, quanto evoca subliminar e sub-repticiamente, problemas maiores do país, como os sociais e os culturais. Mas não é esse o primeiro objetivo de uma novela que, contando com 16 episódios, procura antes de qualquer coisa, demonstrar o caráter obsoleto, ridículo e esgotado de uma forma de expressão que, ao invés de arte, se tornou em histórias repetidas que apelam ao imediato, ao escândalo e ao mau gosto do público geral. (Estaremos a regressar à época em que ler autores maiores e menores do Romantismo era prejudicial para as leitoras que imitavam as donzelas a fugir com o amado? Isto é, estará a novela a incentivar – certamente não todos, que terão raiz nos problemas sociais e económicos do país, mas alguns – casos de imitação dos excessos de uma ação tão desmesurada que ao próprio conceito de ‘dramático’ lhe alterara o sentido?)

Numa entrevista a Ricardo Farinha, Henrique recorda: «Lembro-me que fizemos reuniões de Zoom com o elenco e era uma das coisas complicadas, porque tem de ser um equilíbrio muito ténue entre a intensidade, mas sem ser uma intensidade muito grande para não cair no ridículo. Portanto, as coisas têm de ser ditas com muita intensidade e força, mas não apalhaçadas nem exageradas nem caricaturais. E lembro-me de o Manuel Cavaco dizer que o maior desafio era esse — e é verdade. O desafio dos atores era muito difícil mas acho que eles conseguiram todos.»

A intensidade supra referida é uma hipérbole que na realidade quase nem chega a sê-lo. À exceção das estaladas dadas por braços bem esticados, tirando os copos partidos, os Toys, os gritos que aparecem em demasia e fora as expressões bem sérias – mas naturais – dos atores enquanto filmam cenas que roçam o ridículo, essa mesma intensidade que retrata e satiriza o género novelístico é, em si, obrigatória. Extremamente comercial e “romance de fábrica”, o género da novela é escrito sob pressão, sem tempo para as demoras que a ficção original demanda. E é nesta comercialização em massa e nesta pressão que se impede a maturação de um género televisivo que contamina o gosto geral do público e que obriga a essa intensidade que não chega nem a fazer o retrato do que é viver em Portugal. Daí que surjam as cenas satíricas dos pequenos almoços exagerados, as herdades com piscina, o campo de ténis, os hobbies desnaturados e a preguiça na cultura, “no ir ao teatro”, que Eduardo, um personagem da novela, denuncia a dada altura.

Enfim, «Pôr do sol» está aqui para nos afirmar o que há muito já se sabe: que o género da novela é, de todos os de cinematografia, – se é que o podemos chamar assim e perdoando a falta de melhor termo – aquele que mais morto se encontra, apenas se renovando para se autocriticar.