Opinião

A mágoa por detrás de um véu

A mágoa das mulheres afegãs ao verem as suas vidas serem apagadas de um momento para o outro não pode ser ignorada. Após 20 anos a tentarem recuperar a sua liberdade, esta deve ser protegida. Não podemos deixar o terrorismo vencer.
Por Bárbara Pires

Durante os últimos 20 anos, as mulheres afegãs viram a sua liberdade ser gradualmente recuperada depois de vários anos de opressão por parte dos talibãs. No entanto, após duas décadas de conflito naquele que é chamado o Cemitério de Impérios, os Estados Unidos da América decidiram retirar as suas tropas da região sem, aparentemente, terem estudado todas as implicações que isso teria na população de um país constantemente devastado pela guerra e já há várias décadas sem um sentimento de estabilidade, como aquele de que gozam milhões de pessoas em vários outros países. Assim se criou uma abertura que possibilitou uma nova ocupação de território por parte dos talibãs, aterrorizando sobretudo as mulheres e raparigas do Afeganistão – claramente as pessoas mais reprimidas sob as regras impostas por este grupo terrorista.

Antes do início da inclusão territorial dos Estados Unidos em 2001, as mulheres eram proibidas de ir à escola após os 12 anos de idade; não podiam sair de casa sem um acompanhante masculino; eram vistas como escravas sexuais e vendidas a homens mais velhos ou obrigadas a casar com membros do exército talibã; não podiam ter qualquer emprego e estavam proibidas de sair à rua sem o uso da burca que, apesar de ser de uso facultativo segundo a religião islâmica, é vista como obrigatória segundo a interpretação feita por parte dos talibãs. Agora, todas essas regras estão novamente a ser exigidas e violentamente impostas.

Em 2001, os direitos das mulheres foram utilizados como uma das justificações para a invasão pelos Estados Unidos da América, tendo os representantes do país feito promessas que claramente não passaram de palavras ocas, sendo que o país nunca quis realmente saber de nada mais do que os seus próprios interesses e, presentemente, deixam este povo à mercê do mesmo grupo que lhes tirou todas as suas liberdades. Não se trata de extravagâncias ou exageros, trata-se do direito da mulher em fazer parte da sociedade e de ser tratada humanamente.

As mulheres afegãs já lutam há muito pelos seus direitos, mas agora, sem a sombra do apoio americano, todas as ativistas afegãs correm sérios perigos de vida devido aos anos de luta por igualdade. Mulheres que há um mês atrás podiam ir à escola; tirar cursos superiores; ter um emprego; ver os seus rostos espalhados nas montras das lojas e sair à rua sem qualquer tipo de cobertura ou acompanhante – todas viram as suas vidas serem destruídas no meio de um conflito no qual não estavam envolvidas. Lutaram pelos seus direitos na mescla de 20 anos de guerra e agora foram abandonadas, vendo-se obrigadas a subjugarem-se à vontade de terroristas ou a pagar o preço pela resistência – apedrejamento, açoites, morte … No entanto, mesmo sabendo o risco que correm, as mulheres lideram protestos no Afeganistão contra a ocupação dos talibãs, sempre sob o risco de violência. E é a esta coragem que presto a minha homenagem!

Questiono-me, não enquanto mulher, mas enquanto pessoa, cidadã num mundo supostamente evoluído, onde está a comunidade internacional? O que tenciona fazer para proteger o povo cujos direitos diz que passou décadas a proteger? E os Estados Unidos, que utilizaram as mulheres como justificação para uma guerra multigeracional e agora dizem que não é um problema deles, vão simplesmente sair do país e limpar as mãos?

Este sofrimento das mulheres afegãs não deve ser apenas delas, mas sim de todos nós. A comunidade internacional tem o dever de não as abandonar e os Estados Unidos não podem ser exonerados da situação que se vive no Afeganistão, em que a sua abrupta saída apenas contribuiu para fortalecer a posição dos talibãs. As mulheres do Afeganistão põem a vida em risco para lutar por direitos que lhes estão a ser roubados devido a situações fora do seu controlo, mas não devem lutar sozinhas, precisam do mundo!

 

Artigo da autoria de Bárbara Pires