Artigo de Opinião Opinião

Rangel entrou a todo o gás

Paulo Rangel conseguiu ser num mês o que Rui Rio ainda não conseguiu em anos. Mas será que estamos mesmo a sentir as repercussões do “efeito Moedas”?
Por João Paulo Amorim

Há dias, numa conversa na faculdade, ouvi a seguinte pergunta: no meio de todo este frenesim político, que serve para tudo menos para um Governo trabalhar, quem é que saiu por cima e foi verdadeiramente beneficiado pela conjuntura nacional? Nas respostas dadas, ouvi de tudo. Mas a minha não ia de acordo com a da maioria.

O Presidente da República colocou-se num limbo perigoso, que pode cair para qualquer dos lados, e arrisca perder uma boa fatia da popularidade que tanto estima e faz por preservar. António Costa pode conseguir sacar mais um brilharete de agilidade política e sobreviver a este chumbo com nova solução inventiva, mas pode também perder e sair pela porta pequena para um palco maior, a Europa. A esquerda sai obviamente derrotada e o PCP deu mais um passo para a sua retração. Sobra a direita e particularmente uma figura em específico.

Paulo Rangel entrou a todo o gás. Entre entrevistas, reportagens, propostas, presenças em programas televisivos e ataques, gerou tantas notícias como qualquer outra figura com mais relevância política e como nenhuma outra figura com a sua importância. Avaliando apenas em termos de estratégia de comunicação, deixando o julgamento das qualidades políticas para decisão dos eleitores, as opções seguidas têm-se revelado certeiras. Reuniu com Marcelo Rebelo de Sousa e deixou o rival interno atónito. Conseguiu a data das diretas e deixou Rio sem palavras.

No futuro, não tenho dúvidas de que os votos irão congregar-se no primeiro verdadeiro estadista que surgir e consiga demonstrar o fosso para as politiquices de tasca. Um calculista sem segundas intenções. Alguém que demonstre uma frieza sem facadas. Uma retórica com mais raciocínio e menos palavreado.

Disse claramente ao que vai: ganhar a Rui Rio internamente e partir para a conquista da maioria absoluta com o PSD. Não aceita quebrar o cordão sanitário com o Chega nem tem vontade de se aproximar ao outro lado e formar um bloco central com o PS, num possível entendimento que permitisse estabilidade governamental.

No entanto, esta situação é igualmente reveladora dos mesmos traços a que a política já nos habituou. No futuro, não tenho dúvidas de que os votos irão congregar-se no primeiro verdadeiro estadista que surgir e consiga demonstrar o fosso para as politiquices de tasca. Um calculista sem segundas intenções. Alguém que demonstre uma frieza sem facadas. Uma retórica com mais raciocínio e menos palavreado.

Neste estranho contexto em que vivemos, que nos pode levar, depois de meses de campanhas, ao mesmo sítio onde já estávamos, apenas uma coisa é certa: votar PSD com Rui Rio é dar uma ajuda para a extrema-direita entrar no cenário de governação.

Rangel conseguiu ser num mês o que Rui Rio ainda não conseguiu em anos. Porém, ficou-se pela comunicação social e a sua estratégia nacional, especialmente para quem ambiciona ser primeiro-ministro, aparenta ser, por vezes, um mero adereço. Será que estamos mesmo a sentir as repercussões do “efeito Moedas”?

Artigo da autoria de João Paulo Amorim