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O olhar discriminatório dos Jogos Olímpicos

Christine Mboma e Beatrice Masilingi, duas velocistas de 18 anos da Namíbia, terão sido impedidas de concorrer na prova dos 400 metros nos Jogos Olímpicos em Tóquio. A justificação? O elevado nível de testosterona natural proveniente das atletas. A realidade efetiva? Um ataque direto do mundo do desporto aos direitos humanos.
Por Sara Terroso

O caminho para a afirmação numa esfera que é ainda demarcada por homens poderá revelar-se turvo e sinuoso, concedendo espaço para argumentos disfuncionais capazes de inibir a participação do género feminino nesta espécie de eventos. Há que reconhecer a evolução otimista face à jornada da mulher no acesso a determinada prática desportiva, contudo, são normas instáveis como esta que validam o quão regressista é a sociedade na qual nos inserimos.

Christine Mboma e Beatrice Masilingi, as duas últimas mulheres de ascendência africana a serem afastadas dos Jogos Olímpicos, terão visto o seu maior sonho escapar-se por entre dedos. O motivo? Apresentarem níveis de testosterona considerados acima dos padrões ditados pela Organização Mundial de Atletismo para uma mulher.

A injustiça crua à qual foram expostas provoca agitação já há um tanto de anos, sendo o nome Caster Semenya o que mais se destaca na hora em que tal matéria é abordada. Em 2009, a atleta sul-africana consagrou-se vitoriosa na corrida de 800 metros no Campeonato Mundial de Atletismo em Berlim, porém, foi a sua aparência física que despertou incertezas acerca da presença de mulheres com traços masculinos em competições internacionais.

A desportista que, efetivamente, sofria do “distúrbio endócrino comum das mulheres em idade reprodutiva caraterizado pelo excesso de testosterona”, viu-se privada de competir ao longo de 11 meses, sendo que em 2011, a World Athletics comunicou ainda iniciar uma esmerada seleção de mulheres com hiperandroginismo, consentindo o consumo de hormonas a qualquer mulher que declarasse um valor superior ao acordado. Semenya confessou ter recorrido à medicação entre 2010 a 2015, de modo a diminuir os seus níveis de testosterona, no entanto, os seus relatos a respeito dos efeitos secundários não exprimiam qualquer otimismo ou melhoria. Ainda assim, a atleta correu rumo ao sucesso, alcançando a medalha de ouro nos 800m nos Jogos Olímpicos de 2016, mas mais uma vez, o seu brilho viu-se ofuscado assim que fora implementada uma norma que submetia as atletas femininas à redução obrigatória dos seus níveis de testosterona, regra à qual Semenya se recusou em compactuar.

Mas porquê esta desmedida pressão face a uma condição advinda do nascimento? Mais do que conceber a problemática de que as mulheres necessitam de “conserto” através de tratamentos de redução de testosterona, o regulamento estipulado peca ao dirigir-se às mulheres cisgénero e intersexo como se nem de mulheres se tratassem, levando-as a duvidar até do seu próprio “eu”.

Percecionar a performance atlética excecional de todas as mulheres anteriormente mencionadas como fruto dos seus níveis elevados de testosterona, é como pôr em causa toda a sua dedicação que espontaneamente se evapora. A farsa pela promoção da saúde física e mental dos atletas é também aqui evidenciada, dado que desvalorizam o seu esforço, encorajando ainda a toma de medicamentos responsáveis por uma sensação de desconforto constante, ganho de peso, náuseas e febre.

Uma vez que a avaliação aos níveis de testosterona não inclui a generalidade das desportistas, é de realçar também o padrão de mulher proposta à testagem. Estas, meramente suspeitas por conta da aparência, são geralmente caraterizadas pelo seu tom de pele escuro, altura eminente e força acima da média.

Assim, pergunto-me: é o aspeto que as torna desiguais? É a cor, a força ou fisionomia? Ou será o nível de testosterona? Serão elas menos profissionais ou, ainda, menos mulheres? A resposta é um redondo não, porque menos humano é só quem rege e consente.

 

Artigo da autoria de Sara Terroso