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Uma crônica-desabafo: sobre a impotência de ser o que é e do mundo fazer o que faz

Breve reflexão acerca do tráfico humano, desigualdade, racismo e injustiça social.

Privilégio branco de gente abastada é ter medo do tráfico humano como se uma van te fosse sequestrar na esquina da tua casa enquanto tu voltas do mercado com vinho e chocolate. Dei-me conta disso quando percebi que uma amiga minha foi traficada e eu nada fiz e nada podia fazer para ajudar.

Coisas que a gente não espera viver. Os vinte anos são uma loucura.

Ela estudava comigo, não exatamente comigo, mas na mesma faculdade. Era de outro curso. E era minha vizinha. Estávamos sempre juntas, pessoa incrível, ótima energia. Damo-nos super bem porque sendo nós duas Estudantes Internacionais e as duas da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, sempre tínhamos alguma coisa para falar. Seja reclamar da universidade, ou lembrar carinhosamente da batata de Marechal, a melhor batata frita do mundo.

Vínhamos, porém, de partes muito diferentes da cidade. Eu, afortunada, nasci e cresci no asfalto. Vim da Zona Oeste do Rio de Janeiro, estudei em colégio de rico na Barra da Tijuca, fiz curso de inglês, natação, aula de ballet. Meu pai era funcionário público, minha mãe autônoma. Fui criança prodígio porque tive o direito de ser, antes de tudo, criança; mas nunca pude brincar na rua porque minha mãe sempre dizia que “o Rio tá ficando muito perigoso”.

Ela não. Ela sempre brincou na rua lá do morro. Minha amiga veio da Zona Norte. Para quem não conhece o Rio de Janeiro, ele se divide em quatro zonas: o centro da cidade, tumultuado, o maior ponto comercial e financeiro da cidade; a zona sul, onde se filma as novelas da Globo e onde os burgueses moram, é o cartão postal da cidade; zona oeste, que é o lado mais esquecido do Rio, marcado pela desigualdade social se divide em Barra da Tijuca e subúrbio. E tem a zona norte, berço do funk e da cultura de rua da cidade – e também a zona mais pobre.

Ela nasceu e cresceu na zona norte. No morro, para ser mais específica. Isto é, na favela. Enquanto eu estudava em colégio particular católico agostiniano recoleto, ela estudava na escola municipal da esquina. Enquanto eu tinha aulas de laboratório e prática, para ela faltava professor de biologia. Ela podia brincar na rua, mas tinha que tomar cuidado quando a Polícia Militar subia o morro. E enquanto eu aprendia a diferenciar os tipos de pássaros da Mata Atlântica pelo canto, ela precisava identificar o tipo de bala pelo som.

Mesma cidade.

Realidades diferentes.

Eu vim para Portugal porque eu quis. Foi minha escolha; optei pela Universidade do Porto a dedo. Tinha passado para diversas outras universidades no Brasil e fora dele. Minha escolha foi confortável, baseado no que seria mais cômodo para mim e o que daria menos gastos para os meus pais. Afinal, meus pais me bancam. Sou patrocinada por uma família de classe média e renda confortável. Ela veio porque era a única forma dela conseguir o sonho dela de fazer faculdade. Conseguiu sair da favela por ter aprendido a falar inglês sozinha e ter começado a trabalhar de au-pair na gringa. Com muita força e muito esforço, conseguiu economizar o suficiente para aplicar para a faculdade e se bancar durante o primeiro ano aqui. Teria que procurar algum trabalho part-time para continuar estudando, mas, fazia parte da sua vida ter que trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Foi assim que ela chegou onde chegou. Confesso que me envergonho ao conversar com ela de vez em quando, visto que toda a minha experiência de trabalho foram brincadeiras de boneca que chamamos casualmente de “voluntariado”.

Estava tudo dando meio certo para ela, enquanto tudo dava certo para mim. Ela conseguia enviar dinheiro para a família para ajudar a avó, eu gastava o resto do dinheiro que meus pais me mandavam em livros para a faculdade. Saíamos juntos para a Cordoaria, bebíamos uns finos e virávamos uns shots. De fora, estávamos de igual para igual. Éramos o mesmo. Mas, nossas realidades pesavam de maneiras diferentes.

Eu era uma mulher brasileira branca de classe média que estava sendo financiada pela família para ter a experiência de estudar fora.

Ela era uma mulher brasileira negra que estava morando fora para conseguir ajudar a família e estava se esforçando para também conseguir seguir o seu sonho de estudar.

Eu estava aqui por opção.

Ela estava aqui porque precisava.

E tudo estava dando certo para mim e meio certo para ela até que a pandemia começou. Enquanto o meu maior incômodo foi não conseguir voltar para o Brasil antes das fronteiras fecharem, ela foi afastada do trabalho por lay-off. Eu tive que lidar com as dores de ser neuroatípica meio à quarentena estando sozinha. Ela também. Só que, além disso, com o peso econômico sobre seus ombros de ter que procurar emprego. E rápido. Não tinha economias o suficiente para continuar assim por muito tempo.

Foi assim que comecei a ajudá-la a procurar emprego. Mas sou menina tola e não sei fazê-lo, visto que nunca precisei. Um, dois, três, quatro, cinco, seis meses passaram e o desespero crescia. Ela conseguia se manter com o dinheiro que tinha pegado emprestado, mas o credor sussurrava em seus ouvidos pedindo o pagamento da dívida. Cada mês que passava era um desespero a mais. Passou a não conseguir mais pagar as proprinas de 192 euros e 50 cêntimos ao mês – o valor para os Estudantes Internacionais – e, sem possibilidade de bolsa ou assistência por ser imigrante, via-se a ponto da desistência. Mais uma vez, tentava estudar. Mais uma vez, seu sonho era aparado. Não era a primeira vez que isso acontecia.

Até que, uma das antigas famílias para quem ela trabalhava como au-pair, ofereceu-lhe uma proposta de emprego. Com a COVID-19, as aulas seriam online mesmo, então ela poderia continuar assistindo às aulas e trabalhar como au-pair para eles de novo. Família rica, dona de empresa, extremamente carinhosa, um casal e dois filhos lindos, que ela conhecia e confiava. Eles propuseram que ela fosse até Luxemburgo, onde eles moravam, morasse e se alimentasse, e ela receberia menos que o salário-mínimo por causa disso. Bem menos, mas ser au-pair é isso. Ela aceitou.

Aceitou porque era essa a oportunidade que tinha. E precisava pagar a faculdade, as contas, o credor e mandar dinheiro para a família que estava fazendo falta. E o avô tinha adoecido e as coisas estavam complicadas por lá.

Era uma oportunidade de emprego e ela não tinha outras. Por isso aceitou. Comprou a passagem e foi, mesmo depois de ter pensado duas vezes.

Não tinha contrato, é claro, mas, disse a família que não precisava de contrato porque eles tinham confiança.

Não tinha visto, é claro, visto que não tinha contrato.

Mas tinha a promessa. E foi.

O pagamento era por hora e não contava todas as horas extras que ela trabalhava. Se no acordo inicial a premissa era só cuidar das crianças, na realidade o casal esperava que ela cuidasse também da casa. A família provinha um quarto para ela morar, tinha onde dormir. Mas a comida era escassa e muitas vezes ela tinha que ir ao mercado, comprar alguma coisa para não passar fome. O combinado era que ela continuaria estudando, mas a rotina deixava isso cada vez mais difícil. Não tinha fins de semana. Não tinha pausa. Era de domingo a domingo, passando pano no chão e cuidando das duas crianças, sem intervalo. E se chorassem durante a noite, ela acordava e daria amparo. E se a máquina de lavar quebrasse, ela consertava. E os levava à escola e buscava da escola. As aulas da faculdade começaram a ficar de lado, chumbou algumas cadeiras por isso. Mas ela precisava do dinheiro e eles pagavam. Ela precisava muito do dinheiro e essa tinha sido a única oportunidade que ela tivera meio ao desespero.

Eles pagavam, sim. Menos que um quarto do salário-mínimo nacional. E descontavam férias, fins de semana ou qualquer momento que ela não estivesse na posição de neoescravidão. Mas eles pagavam. E por isso ela tinha conseguido quitar as dívidas com o credor e, pouco a pouco, estava conseguindo pagar as propinas atrasadas. Mas as propinas continuavam atrasadas. Ela procurava por part-time em Portugal, ou estágios remunerados. Mandava currículo para empresas e mais empresas e mais empresas e mais empresas. Somente respostas negativas. E o casal pagava, mesmo que em troca ela desse um pouco de sua dignidade e sanidade.

Converso com ela de tempos em tempos. Mando cartas de vez em quando e ela me responde quando tem tempo, apesar de que ela quase nunca tem tempo. Nunca tinha reparado a gravidade do que ela estava passando até colocar um episódio especial do Podcast de um jornal renomado – era La Jornada ou El País, talvez – falando sobre tráfico humano. E o caso dela se encaixa. Perfeitamente.

Tráfico humano e exploração de trabalho.

Foi quando percebi que tráfico humano não acontece como no filme “Taken” do Liam Neeson, em que arrombam a casa de jovens loiras brancas e as sequestram e vendem num mercado ilegal no submundo. Acontece com uma oferta de emprego que parece boa demais para ser verdade quando a pessoa está em uma situação de vulnerabilidade. Eu não preciso ter medo dele, nem tu, leitor, se tu tiveres dinheiro e conforto o suficiente.

Enfim.

O casal ofereceu que ela continuasse trabalhando para eles no próximo semestre. Ela não sabe o que fazer, visto que ainda tem contas e propinas a pagar. E eu? Sou apenas espectadora nessa angústia desumana.

 

Artigo da autoria de Débora Magalhães Binatti