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Eurovisão: o que precisávamos no momento certo

Depois de em 2020 termos ficado sem Eurovisão pela primeira vez desde que foi criada, este ano temos uma edição que veio ressuscitar o sentimento europeu e abrir um rasgo de esperança no futuro. O certame aparece no momento certo quer do ponto de vista político, quer do ponto vista social. Esta semana a tolerância venceu a discriminação. O entretenimento venceu a pandemia. Nós todos demos mais um passo em direção à normalidade.

Dois anos depois de os Países Baixos se terem sagrado vencedores do Festival Eurovisão da Canção, chegamos finalmente a Roterdão para a 65ª edição do concurso. O cancelamento de 2020 levou os curiosos a assistirem ao certame pela primeira vez e deixou os fãs numa longa espera que culminou esta semana. “Open up” é o slogan deste ano, algo que combina perfeitamente com o simbolismo do regresso do programa.

Muitos podem estar ainda incrédulos quanto à realização de um evento desta dimensão em tempos de pandemia, já outros acreditam que veio no momento certo. A verdade é que se restabeleceu um pedaço da nossa antiga normalidade. Esta semana assiste-se a mais um triunfo do mundo sobre o vírus que nos roubou um ano das nossas vidas.

A Covid-19 não está erradicada e até houve alguns contágios no seio das delegações, mas tendo em conta o número de pessoas que o concurso movimenta, ter uma percentagem de positivos tão baixa nos testes realizados é uma vitória para todos nós e devolve-nos a esperança. Mais do que nunca, precisamos desta positividade, deste tipo de entretenimento a entrar em nossa casa para romper com o tédio a que os tempos nos têm submetido.

O Festival Eurovisão da Canção, desde a sua criação em 1956, nunca nos deixou sozinhos até 2020. A pandemia retirou-nos os eventos de grande envergadura, entre eles este concurso europeu que preza por celebrar os valores de inclusão, solidariedade e diversidade. É um dos principais feitos de uma Europa, que arrasada por duas guerras mundiais, tenta efetivamente, ano após ano, lançar as bases de uma união entre povos e uma verdadeira cultura europeia.

A globalização tem sido posta à prova nos últimos meses. Cada vez é mais comum vermos extremismos conservadores a assumirem as rédeas da Europa, tal como se viu na década de 20 do último século e que levou ao terrível desfecho que conhecemos. A história parece repetir-se, mas hoje temos um certame como a Eurovisão que luta para isso contrariar. Por uma semana, os nacionalismos dão lugar a uma competição saudável entre canções, onde a diversidade assume o plateau.

É um privilégio saber que o nosso país faz parte de um certame destes contornos. Sábado tivemos inclusive a oportunidade de ver Portugal a competir na grande final, – algo não muito habitual – com cerca de 200 milhões de pessoas a ver. Se já não bastava termos o contacto com muitas outras culturas europeias, vamos poder partilhar com o mundo o que de melhor se faz cá dentro no mundo da música. Depois dos tempos tão conturbados que o setor da cultura tem vivido, temos agora um momento crucial para começar o seu resgate.

Juntos somos mais fortes” é uma frase bastante reproduzida no dia a dia, mas espelha bem a realidade. É isso que a Eurovisão nos traz. O regresso do certame parece vir, de certa forma, reestabelecer a ordem normal do mundo. Desde a pirotecnia até às emoções sentidas, todas as atuações são mais um passo que damos para conseguirmos virar a página deste tempo pandémico. Mais do que nunca um concurso como este é importante nas nossas vidas. Esta semana a cultura e o entretenimento venceram.

 

Artigo da autoria de André D’Almeida