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Um amor como o dos nossos avós

"Só pedia um amor como os de antigamente", clamamos nós no auge da amargura provocada pelas fendas de um pequeno romance. A dissociação entre gerações é real, mas não será o amor um sentimento inalterável que, passe a idade que passar, nos torna idênticos aos nossos avós?
Por Sara Terroso

Desde pequena que me recordo de desfrutar as tardes de sábado a ouvir fascinadamente as histórias da minha avó na sua juventude. Sentadas na escadaria do quintal, muitos foram os relatos que escutara sobre o meu avô. Como se conheceram no coro da escola, os encontros furtivos entre os dois pelo meio da noite, o quão atribulado foi a partida do meu avô à procura de condições superiores no estrangeiro, mas, em especial, o quanto ela apreciava as inesperadas surpresas nas quais ele regressava na companhia de um ramo de tulipas nos braços. Oh, e como ela gostava das tulipas.

Assim como a maioria, cresci com esta imagem estereotipada e padronizada de que o amor é um efetivo conto de fadas, existindo tão só e unicamente espaço para a magia e entusiasmo. À sua superfície, também as histórias contadas pelos nossos antecessores aparentam pura plenitude, porém, à medida que amadurecemos, constatamos que nem tudo é tão descomplicado assim.

Tal e qual as publicações de casais que contemplamos diariamente no Instagram e condenamos como superficiais, também o ser humano no seu geral procura exaltar e lapidar as suas narrativas, ocultando todo o tipo de miséria que tenha experienciado. Afinal, que relevância concederão as lamúrias?

Todos aqueles que estipulam os namoros de antigamente como exímios estão, na realidade, a obliterar-se do conservadorismo e rituais tradicionais particulares daquela data. Embora a enorme idealização de que o amor de outrora perdurava toda uma vida, tal verdade ocorria, muitas vezes, por mérito dos princípios arcaicos que estabeleciam a ordem clara, que ditava o casamento e constituição de família como o necessário a ser feito.

O romantismo descrito em baladas e sonetos antigos da época é como a ponta do iceberg. Numa primeira perceção, é um amor sublime sem quaisquer barreiras, um amor genuíno no qual todos nós explodimos de ânsia para vivenciar, mas basta mergulhar nas profundezas para o transtorno emergir.

Refiro-me à restrição da própria liberdade, à submissão da figura feminina e à não aceitação da orientação sexual de cada um – todas elas conquistas que se têm vindo a alcançar e não as podemos, de modo algum, descartar.

Atualmente, ainda que o romantismo avance escasso e a tecnologia tenha invadido o nosso quotidiano, ouso-me a afirmar que perduramos semelhantes às prévias gerações. Não só pela luta constante face à resistência de ideais regressistas, mas porque o amor, se puro e respeitador, dará asas à mais bela das histórias que aos netos se poderá contar, quer em 1960, quer em 2021.

 

Artigo da autoria de Sara Terroso