Artigo de Opinião Opinião

Banalização do Assédio: Até quando?

"Sozinha ao anoitecer com aquelas roupas, a dançar daquela forma e após ter bebido tanto assim, esperava o quê?"
Por Sara Terroso

Esperava sentir-se bem. Divertir-se no decorrer de uma noite de distração e lazer passada entre amigos, retornando com calma e tranquilamente a casa. Adormecer sem qualquer tipo de inquietação ou dano à sua integridade física e mental. Apenas uma leve ressaca que, no máximo, desvaneceria na manhã seguinte.

Não há justificações plausíveis para um ato tão cruel e repulsivo. O assédio ou abuso sexual não escolhe idades, hora ou local, e a despeito do que muitos especulam, os referidos aspetos como a roupa utilizada e até mesmo a quantidade de álcool ingerida nunca serão os protagonistas deste crime. O abusador, preso à intimidação e marcado ainda pelos seus inadequados e apáticos comentários, é o único responsável por tamanho delito. Também a sociedade, ao culpabilizar a vítima compactuando com tal abominável feito, acaba por se aliar ao agressor, configurando todo o seu caráter.

Tendo lugar no trabalho, na universidade, na rua, nas discotecas, nos transportes públicos e até em casa, não existe qualquer paradigma para o assediador, refletindo-se ora num estranho, ora num colega, amigo ou familiar. Também o sexo masculino, embora sem tanta repercussão, sofre de investidas femininas. Sujeitos a uma cultura machista, receiam a exposição e denúncia uma vez que o papel de herói destemido imposto pela sociedade vê no assédio e abuso sexual um incentivo para a sátira e ridicularização.

Elogios, assobios e olhares desconhecidos bem como convites insistentes, trocadilhos e apalpões sem qualquer consentimento envolvido, são alguns dos casos mais recorrentes de assédio. Nesse sentido, não é obrigatório existir contacto físico para que ocorra a agressão. Esta, concerne a todo o comportamento indesejado de caráter sexual com o intento de provocar ou constranger a pessoa, afetando consequentemente toda a sua dignidade.

Sob este ambiente aterrador e humilhante, a quebra do silêncio é extremamente necessária. A denúncia, ainda que ceda espaço para o receio e vulnerabilidade da própria vítima, é crucial no sentido de romper com a violência que tão mal evidencia a nossa sociedade.

Por isso, denuncia. Por ti, pelo/a teu amigo/a, por aquele/a que foi uma das inúmeras vítimas de violência sexual, porém o pavor e hesitação falaram mais alto. Mas denuncia.

 

Artigo da autoria de Sara Terroso