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A verdadeira faceta dos Óscares

O clímax da temporada de prémios de filmes vai ser alcançado a 25 de abril com a cerimónia que reflete os defeitos de uma indústria que tenta ser progressista mas, na verdade, preocupa-se mais com o dinheiro que possui debaixo do colchão, também conhecida como os Óscares!

E não me interpretem mal, eu sou obcecado pelos Óscares desde o início da minha adolescência. Tento sempre ver religiosamente a maioria dos filmes nomeados e autoproclamo-me expert em prever quem ganha as categorias. O meu grande dilema é que, ao analisar esta chique comemoração que obriga as celebridades a aperaltarem-se para mostrarem ao mundo que ainda são relevantes, percebo que é uma autêntica idiotice.

Para começar, todos os estúdios de cinema sabem que se quiserem ter a remota oportunidade de os seus filmes serem nomeados, precisam que estes estejam nos cinemas só no final do ano. Salvo raras exceções, nenhum filme que saia antes do verão poderá alguma vez ser considerado. Isto porque a academia não se preocupa tanto com a qualidade, mas sim com a publicidade.

Além disso, quem percebe dos bastidores da indústria dos filmes sabe que, na prática, existe uma fórmula para se sair vitorioso. Cada película que quer ostentar na capa do DVD “nomeado a Óscar” precisa de criar uma campanha extremamente pomposa para a elite que decide os vencedores – a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Colocando de uma forma simples: ganha-se a estatueta com dinheiro e estatuto, não com talento.

Sim, ajuda ser um filme sobre Hollywood que evidencia o lado positivo da fama ou então que aborde um tópico que transmite a ideia de que a Academia é extremamente moderna e sensível. No entanto, o método mais eficaz é organizar festas chiques em que beber é o plano A, falar sobre o mais recente divórcio escandaloso é o plano B e observar o filme que está a ser projetado na parede é o plano Z.

E nem chegámos à melhor parte da temporada – a publicação dos “Brutally Honest Oscar Ballot” pela Hollywood Reporter! Estes artigos são uma tradição anual em que membros anónimos da Academia explicam a razão por trás do seu voto. Ora, desde terem uma crush na atriz até votarem no “12 anos de escravo” sem terem assistido só para dizer que não são racistas, todos os podres são revelados.

Ao lermos a explicação dos eleitores, apercebemo-nos da sua incompetência: só viram um filme dessa categoria e simplesmente escolhem-no como o melhor, não sabem a diferença entre duas categorias nem se esforçam para descobrir (como por exemplo distinguir Melhor edição de som de Melhor montagem de som), etc… Enfim, querem que o público leve a sério algo que a própria indústria considera fútil e superficial.

A verdade é que, apesar de os Óscares me enfurecerem, todos os anos volto a entrar na armadilha porque acaba por ser uma excelente fonte de entretenimento. Espero que, com o tempo, haja alterações para nos focarmos na arte cinematográfica em vez de trivialidades. Aliás, se pudesse falar com todos os membros da Academia, perguntava-lhes: têm noção de quantas pessoas gostariam de estar na vossa posição e do quão triste é a forma como a maioria de vocês usa o poder que têm?

 

Artigo da autoria de Afonso Caetano