Opinião

O infortúnio dos afortunados

Uma geração de afortunados que tiveram o infortúnio de se formarem durante uma pandemia. Estará o Estado português a fazer o necessário para proteger os estudantes mais vulneráveis?
Por Diogo Carvalho

Sentado a escrever tenho sempre a sensação de ser um afortunado. Não em comparação com os meus pares, mas sim com a juventude dos meus pais. A sua formação foi algo que ficou pelo caminho, a paternidade chegou cedo e o matrimónio veio por consequência.  Efeito disso, nunca houve abundância cá em casa. As férias foram escassas e a cultura entrou sempre pelo ecrã da televisão. Mas algo que sempre esteve à altura foi a educação. Os valores foram passados e assimilados e, apesar de percalços pelo caminho, o sucesso tem chegado. Entrei no ensino superior este ano, sendo um dos muitos jovens portugueses que, apesar das adversidades, tem conseguido alcançar o sucesso com sacrifício próprio e dos familiares.

A maioria dos estudantes portugueses encontra-se numa realidade parecida com a minha. O sacrifício pessoal e dos pais conseguiu que ingressassem no ensino superior, muitos deles sendo a primeira pessoa da família a conseguir este feito. Mas a continuidade no mesmo tem sido constantemente posta à prova pela pandemia.

Despiram-nos os trajes, minaram-nos a confiança e pouco fazem para que não sucumbamos à depressão e à angústia de vermos o nosso futuro ser manietado por uma incerteza constante.

O ensino à distância tem gerado enorme descontentamento e as instituições de ensino têm ficado muito aquém da resposta que os estudantes merecem. Passado um ano de pandemia ainda não temos uma política concreta para as nossas necessidades.

Um inquérito feito pela Associação Académica da Universidade de Lisboa determinou que um quarto dos estudantes já saltou refeições e, desses, quase 60% admite já ter pensado abandonar o ensino superior. As principais dificuldades manifestadas foram relativas às propinas e à capacidade de manter o alojamento.

É urgente uma ação por parte do governo para evitar o abandono escolar e promover a transição dos jovens do ensino secundário para o superior. É importante que a ajuda chegue a todos os estudantes que estejam em dificuldade, através do serviço de apoio social ou através de outras instituições. As medidas de prevenção ao abandono escolar devem ser reforçadas e o novo ano letivo deve ser preparado com políticas capazes de fazer frente às adversidades que possam surgir.

Não podemos ter a repetição de promessas vazias e um clima de incerteza constante que leva ao desespero de alunos e instituições.

A conjuntura está a favorecer para que a história se repita. Os millennials sofreram com uma crise que conduziu ao abandono escolar de uma parte considerável dos jovens, levando-os a ingressarem num mercado de trabalho pouco especializado e com ordenados baixos. E, aqueles que conseguiram acabar os estudos, foram “convidados” a emigrar. Na iminência de uma nova crise económica, a geração Z parece estar a acumular crises  no currículo, e apesar de serem conotados como uma geração de “afortunados”, a realidade parece desfasada da afirmação.

Percebo que a luta em várias frentes contra a pandemia  possa ser frustrante e desgastante para o governo e instituições. Mas é importante não se esquecerem daqueles que estão mais vulneráveis. É importante não deixar que a história se repita. A formação é uma das principais alavancas para a melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento do país.

Para esta geração de afortunados, já lhes chega o infortúnio da pandemia…

 

Artigo da autoria de Diogo Carvalho