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Jesus, picanha e bacalhau à Brás

Breves reflexões em um domingo de Páscoa sobre o Antigo Testamento e almoços de família.

 

Nasci em uma família católica o suficiente para comer bacalhau na Páscoa, mas não o bastante para abrir mão do churrasco de domingo. Daquela que batiza os filhos quando nascem, mas não obriga a ninguém fazer a crisma. Pequena cética desde criança, eu, por exemplo, sequer tenho a primeira eucaristia. Não posso provar das hóstias, curiosidade que me assolará pelo resto de minha vida. Talvez devesse eu ter feito a comunhão, para poder pelo menos participar da parte de pães e vinhos das missas de sétimo dia das quais eu sou obrigada a frequentar. Infelizmente, à época pareceu-me uma boa ideia deixar de lado a catequese para fazer aulas de patinação no gelo – não que hoje eu ainda me lembre de como se patina no gelo.

De toda forma, cresci em uma família pragmática e de costumes simples: peixe na Sexta-Feira Santa e picanha no Domingo da Ressureição. Todo ano era assim. Tradição da casa. E, decerto, com seus fundamentos. O bacalhau na sexta-feira era por causa da cultura luso-católica. Não se pode faltar bacalhau na ceia de Páscoa. Seja à Brás, com natas, na batata, desfiado ou como bolinho, bacalhau era imprescindível no nosso almoço de Sexta-feira da Paixão. Páscoa sem bacalhau na sexta é pecado, assim como adultério, pedofilia ou votar em fascista alegando ser a opção menos pior.

Mas domingo, por sua vez, é sagrado. Até mesmo Deus despiu-se do terno e gravata, calçou suas havaianas, abriu uma cervejinha e queimou uma carninha maneira no sétimo dia. O homem sabia o que estava fazendo. Se o Senhor nos abençoou com um dia de descanso, há de o domingo ser de descanso. Quem seria eu para contrariar a ordem divina? Assim, todo domingo era dia de churrasco. Até mesmo o Domingo de Páscoa, afinal, antes de ele ser de Páscoa, ele ainda era um Domingo. Portanto, dia de pão de alho, farofinha, linguicinha, molho à campanha e uma boa picanha malpassada. Porque a picanha é o simbolismo de um domingo especial. Nos demais fins de semana, um contrafilé ou uma alcatra bastava. Churrasco com picanha era um churrasco de jeito. Tudo isso sempre regado a um sambinha e cerveja gelada.

Dessa forma, os churrascos de Páscoa tinham uma certa áurea especial. Uma áurea santa, quase casta, quase divina, geralmente representada pelo peixe que sobrou de sábado indo para a churrasqueira. Ou talvez fosse o quilo da carne que sempre ficava mais barato nessa época. Promoção de filet mignon é sempre um milagre. Maminha a vinte o quilo também.

Por causa dessa pequena tradição tenho uma certa dificuldade em lembrar das restrições alimentares dos meus companheiros não indoutos dos temas católicos e teológicos. Cometi mais erros do que posso, ou melhor, do que quero admitir fora da minha inculta bolha familiar. Afinal, como iria eu saber que frango conta como carne? Ou que as regras da Páscoa são mais complexas que simplesmente “sexta é dia de bacalhau”. Ora, como iria eu saber que churrasco no domingo não pode? Domingo, pois, é dia de churrasco.

Cometi erros, leitor. E lamento-os e peço desculpas por eles. Embora, devo admitir, o lamento não é grande o suficiente, não ao ponto de mudar meus hábitos. Não é por mal, diga-se de passagem. Nada contra os dias sem carne – sou até adepta do vegetarianismo de vez em quando, é bom reduzir o consumo da carne, o planeta agradece. Eu só não consigo entender a discriminação específica da Páscoa. É cultural, eu sei, só é como é, não tem muitas explicações. Mas queria saber o porquê. Por quê? Por que só pode peixe? Por que não abolir todos os tipos de comida de origem animal de uma vez só e fazer um grande feriado vegan pro animal-rights?

Talvez a questão esteja mais fundada no comer o peixe do que não comer carne vermelha. Não era Jesus que curtia pescar e até multiplicava o pesque-e-pague para dividir com os amigos? Ou estaria a tradição fundada nos Levíticos e se correlacionava à questão dos animais de casco fendido e frutos do mar? Enfim, busco respostas que não existem. Busco a compreensão. São tantas perguntas, tantas dúvidas… Deveria eu procurar um convento para elucidar minhas questões, purificar meu espírito e não ter mais que ficar explicando para aquela tia de terceiro grau que não, não tenho nenhum namorado, não, não tem ninguém na minha vida no momento, estou focando na minha carreira por agora.

Decisões, dilemas da vida.

Mas, até lá, continuarei comendo da minha picanha e do bacalhau à Brás. Jesus há de me perdoar pelos meus pecados, não é mesmo?

E se não perdoar, paciência. É melhor que valha a pena.

 

Artigo da autoria de Débora Magalhães Binatti