Artigo de Opinião Opinião

O lado negro da Santa Casa da Misericórdia

A recente polémica com a nova Raspadinha do Património voltou a trazer à praça pública um grande problema ético: será que os fins justificam os meios? Além dessa questão, no entanto, impõe-se uma mais premente: sabemos realmente quais são os fins?

Em fevereiro, foi divulgado um estudo da Universidade do Minho que dava conta da enorme adesão dos portugueses às raspadinhas. Em 2019, por dia, foram gastos uns estonteantes 4,7 milhões de euros nas várias raspadinhas da Santa Casa. Estima-se que, nesse mesmo ano, cada português tenha gasto em média 160 euros por ano em raspadinhas, mais do dobro da média europeia.

Curiosamente, fevereiro trouxe-nos também um anúncio por parte do governo de uma nova raspadinha: a Raspadinha do Património Cultural. Nas palavras da Ministra da Cultura, esta nova raspadinha servirá “para que cada cidadão se sinta parte da missão nacional de preservar o património.” Na melhor das hipóteses, estas afirmações demonstram um desconhecimento sobre aquela que é a demografia que sustenta estes jogos. Na pior, é mais um ato de dissimulação por parte do governo.

Ainda que a questão ética seja discutível em quaisquer dos casos, há algo que separa as raspadinhas dos restantes jogos de azar como as lotarias ou dos jogos de apostas. As raspadinhas são jogos de recompensa imediata e, como tal, o seu potencial para viciar jogadores é colossalmente maior. Raspadinhas são autênticas slot machines em formato papel. Este tipo de jogos é permitido apenas em casinos, e há boas razões para isso. Isto é, até ter sido aberta uma exceção à Santa Casa. Foi uma péssima ideia.

Toda a gente que frequenta pontos de venda de raspadinhas sabe que, frequentemente, quem mais se vicia é quem menos dinheiro tem. Fazem-no porque a perspetiva de dinheiro fácil é aliciante e aciona instintos difíceis de travar. Não é raro ver pessoas gastarem parte significativa dos seus rendimentos em raspadinhas, inclusivamente pensionistas.

O lançamento da raspadinha do património, previsto para maio, vem agravar ainda mais a situação. Desengane-se quem pensa que se trata de algo mais que um imposto socialmente discriminatório, mas livre da contestação que normalmente vem atrelada aos impostos tradicionais. Por alguma razão, no dito popular, a raspadinha é apelidada de “imposto dos pobres”.

Não é por acaso que a Santa Casa detém um monopólio sobre a indústria do jogo em Portugal. É um instrumento do Estado. Através das cortinas de fumo do “só joga quem quer” e do destino “misericordioso” dado ao dinheiro que estes jogos produzem, a Santa Casa, com o apoio e incentivo dos sucessivos governos, tem levado famílias à ruína. A moralidade podre de quem nos governa deve ser questionada.