Crónica Devaneios Opinião

Crónica Poética: Uma Ode Pandémica

E depois do brotar da primavera, uma crónica poética no dia da poesia, para nutrir fragmentos da nossa existência vadia, no início de mais um ano "contagiante".
Por Ana Garcia

Quando entorpecidos despertam para tempo distópico,

Entre o emergente desconhecido e um estado hipnótico…

 

Amargo bálsamo, contagiante sabor de primavera,

Desordenado turbilhão, vertiginosa insânia austera;

Ventos revoltos sopram para trás e para a frente,

Sacodem sonâmbulos perdidos de alma insurgente.

 

Ressoam gritos silenciosos alimentados na escuridão,

De corpos sitiados e de mentes perdidas na inquietação;

Tempestade de murmúrios, um mundo que protesta,

Anticorpos precisam-se para esta (i)realidade indigesta.

 

Viagem de insónias à boleia de sonhos aprisionados,

Asas que se quebram, nuvens solitárias, voos adiados;

Chuva que se faz de lágrimas que carregam ausências,

Solidões eternas, e afetos perdidos que são urgências.

 

(Des)encontros esquecidos são levados por fantasias que voam,

Relatos de memórias que resistem e distâncias que magoam;

Entre ânsias e medos, olhares tristes que apagam ao adormecer,

Quando múltiplos sonhos se acendem e anseiam por acontecer.

 

Cega estranha procura por liberdade que jaz na própria prisão,

Veneno sedutor, adoçadas oportunidades de mudança em vão;

Viciado desassossego de quem sobrevive ao respiro em clausura,

Profecia de sábios ignorantes, que contagiam a morte pela cura.

 

Ignóbeis cúmplices de quem arruína o mundo lentamente,

De quem se nutre e se alimenta de uma realidade doente;

Envenenado turvo coração de quem envenena a liberdade,

Taquicardia de quem apaga a luz para brilhar na insanidade.

 

Sobreviver entre vampiros, pelo sangue de rasto pandémico,

Imperfeita selva humana, combate de sobrevivente anémico;

Entre trilhos sombreados, à espera da luz, a aguardar um sinal,

(Re)encontro com demónios que se escondem, indolência trivial.

 

Sedenta por um recomeço, tanto por procurar, tanto por mudar,

Resistências persistem, mentes que despertam em causas por lutar;

Entre ruídos e silêncios, voz que nasce completa na incompletude,

É primavera rebelde que brota e que reclama pela eterna juventude.

 

Poesia desobediente nasce em raios de sol e em rasgos de esperança,

Pássaro vigilante que voa veloz desenfreado num suspiro de dança;

Amor que vitamina, inspira e dissipa nevoeiros perigosos devagarinho,

Vislumbre de liberdade que pulsa e na noite nos ilumina o caminho!…

 

Artigo da autoria de Ana Garcia