Crónica Opinião

Um colosso do século XX

Uma crónica de Afonso Morango.

Desde muito cedo, sempre procurei valores pelos quais seguiria a minha vida e que orientariam todas as minhas escolhas. Nessa busca, várias figuras próximas, como a minha mãe e os meus professores mais queridos, surgiram. No entanto, lembro-me perfeitamente quando, aos cinco anos, ouvi pela primeira vez o nome do homem que desvendou as Leis que regem a Natureza e mudou completamente a perspetiva da humanidade perante a imensidão do Cosmos. Foi ele que, desde então, sempre esteve presente nas minhas escolhas e momentos de reflexão. Quando, nas primeiras horas do dia 18 de abril de 1955, Albert Einstein morreu no Hospital de Princeton, em Nova Jérsia, o seu cérebro foi-lhe retirado e guardado para efeitos de investigação médica. Embora esta honra dúbia não fosse única do cientista norte-americano, o simples facto do seu cérebro ter sido guardado, mostra claramente o nível a que crescera a sua fama enquanto génio científico irreverente.

A sua celebridade internacional estendeu-se muito para lá da comunidade científica. Edith Piaff tinha sempre na sua mesinha de cabeceira uma imagem de Santa Teresa, uma Bíblia e um livro sobre relatividade. Para muitos, Einstein era o arquétipo do professor distraído, o excêntrico cientista de cabelos brancos que os já experimentados viam como uma figura modelo dos professores malucos de toda a parte. Embora tivesse sido exposto à atenção pública já em idade avançada, o velho estadista da ciência, laureado com o Nobel da Física, ativista da paz e simpatizante sionista, acabou caricaturado e metamorfoseado num ícone.

A verdade é que a razão pela qual um físico europeu pouco conhecido foi, do dia para a noite, projetado para as luzes da ribalta, tem desde sempre intrigado os analistas. Einstein tornou-se uma personificação do homem sábio do século passado que possuía um certo conhecimento secreto. Algo que o ajudou a realçar o seu estatuto mítico foi a sua emersão no palco do mundo, em 1919, imediatamente após a pior sangria que a Humanidade conhecera. Einstein foi muito mais do que um grande físico seduzido pela beleza severa da Matemática. Para a maioria, era um génio incontestado em muitos mais assuntos além da Física. A sua Teoria da Relatividade ensinou-nos a olhar os céus com outros olhos, num mundo conturbado onde ninguém ousava olhar para cima.

Sendo um judeu a viver numa era de genocídio, Einstein foi um sionista ativo. A acompanhar os seus talentos matemáticos, estava o da música e o seu raciocínio filosófico puro era a base do seu saber vasto e variado. As suas crenças e pontos e vista sobre vários assuntos mostravam uma surpreendente espontaneidade e, embora fossem muitos os seus amigos, sempre foram poucos os íntimos e o seu conforto residia no trabalho solitário durante largas horas no seu escritório em Berna. Não era, definitivamente, um jogador de equipa, embora extraordinariamente amável, mas sempre um pouco distante.

A família Einstein vivia na Alemanha e acompanhou todas as mudanças sociais que ocorreram em terras germânicas no início do século XX. O seu pai era um homem contemplativo e com um perspicaz raciocínio matemático. A sua mãe tinha uma grande cultura literária e uma enorme paixão pelas artes. E foi com ela que o pequeno Albert conheceu o encanto das teclas do piano. Einstein e a sua irmã, Maja, cresceram num ambiente feliz e emocional, embora com uma certa insegurança associada à natureza instável das finanças familiares. O seu pai e o seu tio dirigiam um modesto negócio de eletricidade e foi com eles que Einstein se começou a interessar pelas maravilhas do mundo físico. Conta a história que, certa vez, enquanto estava doente e acamado em casa, o seu pai ofereceu-lhe uma bússola e pode muito bem ter sido aí, com o fascínio daquela criança a olhar para a agulha magnética que se movia como que por magia e apontava sempre na mesma direção, que a curiosidade do pequeno Einstein floresceu.

Os desafios nunca o abandonaram ao longo da sua juventude. A independência e autonomia acompanharam-no desde sempre, não por escolha, mas por obrigação e o seu desinteresse por certas figuras de autoridade, como professores carrancudos, trouxeram-lhe muitas dificuldades ao longo do seu percurso académico. Já em adulto, fez amizades com intelectuais como Bohr, Michel Besso, Marie Curie e Max Planck, ainda que tenham sido os seus anos em Praga aqueles que me despertam o maior interesse. Foi na capital checa que Einstein conheceu Franz Kafka e não consigo imaginar o quão fascinante seria participar num debate com estas duas figuras incontornáveis da História. Depois da Segunda Guerra deflagrar, Einstein teve de agir e tomar partidos, fugindo para os Estados Unidos. Durante estes anos, perdeu muitos amigos próximos para as atrocidades do regime nazi e a sua paixão pela justiça social, bem como a sua repulsa inultrapassável pela violência, sempre o colocaram em conflito com muitos. Todos estes motivos fizeram dele um acérrimo pacifista e antimilitarista apaixonado.

Einstein foi um ser humano genuinamente excecional e justamente compreendido como um dos maiores empreendedores, não apenas dentro da História da Ciência, mas no quadro imensamente mais vasto da experiência humana. Foi um colosso intelectual, com uma moralidade instintiva e tornar o mundo num lugar melhor sempre foi o seu maior desejo, juntamente com a compreensão do Cosmos. Um homem a transbordar de paradoxos, foi um amante da humanidade, mas íntimo de poucos. Um pacifista que esteve na base da criação do programa de armas atómicas e que sempre demonstrou o seu ódio face à arregimentação. Para ele, a Ciência, as artes e a Religião partilhavam uma origem comum enigmática e eram esta procura e curiosidade incessantes pela ordem por detrás do caos aparente em que se encontra o Universo que consumia Einstein.

Com o seu cabelo indomável e a sua língua de fora, Einstein tornou-se numa figura faustiana da imaginação popular, que dedicou a vida à demanda da fórmula das fórmulas: a derradeira Teoria do Tudo. Tal como Marylin Monroe ou Che Guevara, o cientista norte-americano que constava nos registos secretos do FBI tornou-se um ícone do século XX e o seu nome é hoje sinónimo de génio. Para mim, Einstein tornou-se num amigo, alguém que me incutiu o gosto pelo Saber e curiosidade incessante desde que me lembro. Alguém com quem poderia sempre contar e que saberia que estaria sempre comigo, fosse num teste de Matemática, fosse numa noite de verão enquanto olhava as estrelas, estrelas essas que Einstein observou anos antes através da sua imaginação infinita.

 

Artigo da autoria de Afonso Morango