Crónica Opinião

Eleições 2021: Sinto-me traída pelo meu povo

Passaram pela minha mesa de voto trezentas e sessenta e cinco pessoas. Gente a quem agradeci o voto, e para quem esbocei até um sorriso. Tudo para descobrir que vinte e duas delas votaram no Sr. Ventura. Artigo por Inês Araújo Silva.

Sinto a necessidade de partilhar o imenso desgosto que me consome desde a última noite eleitoral. Sou natural de uma vila com uns modestos onze mil habitantes, que pertence a Aveiro e onde se fala «à Porto». No passado domingo, tive a aprazível honra e o distinto privilégio de pela primeira vez assumir uma função útil para a sociedade – verdade seja dita, a custo de um enormíssimo sacrifício: eram seis da manhã, estava escuro, vento e frio, e lá ia eu a medo, a vinte à hora no meu carrito, para ir fazer parte de uma mesa de voto. Que não haja dúvidas de que foi a minha vasta experiência em atos eleitorais que me garantiu esta posição, e não a ingénua coincidência da minha prima ter entrado em isolamento na sexta-feira anterior às eleições.

O meu papel era de escrutinador – para quem não sabe, existem dois indivíduos, habitualmente em polos opostos das mesas, que se distinguem pelos dedos dormentes de tanta folha mexerem e ar atarantado de tantos nomes começados por Maria lerem. Se mesmo após esta explicação não está a ver quem seja, e não tem menos de 18 anos, experimente ir votar.

A dor que me preenche hoje não advém, contudo, da azáfama da «escrutinarice». A realidade é que me sinto traída, usada, minotaurizada até, pelos meus conterrâneos. Passaram pela minha mesa trezentas e sessenta e cinco pessoas. Pessoas cujo nome esteve nas minhas mãos, a quem desejei uma boa tarde, a quem agradeci o voto, para quem esbocei até um sorriso, apesar da luta interna contra o tédio, que exauria por si só a minha energia, vejam a ternura! Tudo para descobrir, lá para as sete e dez da tarde, que vinte e duas delas votaram no energúmeno-mor, o Sr. Ventura. Não sei se imprimo nas minhas palavras a real gravidade da situação: eu vi senhoras que «dão o Senhor» na Igreja; catequistas; a Dona Rogéria da mercearia; a minha professora primária; antigos colegas de escola; a minha tia Maria; os simpáticos senhores que tocam concertina no rancho folclórico da vila… A afronta, o ultraje, a displicência. Dos 3651 votos da freguesia, 295 foram para esse senhor. Duzentas e noventa e cinco pessoas! E estas são as que foram votar! Esta gente mora na rua de baixo, vai ao barbeiro da zona, treina a criançada no futebol, e canta no coro da igreja aos domingos.

Sinto-me traída pelo meu povo. Desde essa noite sinistra e profundamente cruel, passo os dias a percorrer as caras que ficaram gravadas na minha mente, uma a uma, e a tentar decifrar quem terão sido os traidores que destruíram a imagem quase utópica da inteligência e empatia imensa que, aos meus olhos, abundavam na minha humilde terrinha. Garanto uma coisa: na «escrutinarice» não me apanham mais. Ai, não me apanham mesmo! Olhos que não veem…

 

Inês Araújo Silva